Te ver remar

Numa noite fria de Salvador, quase madrugada, após ler mais algumas páginas sobre Vadinho, um dos maridos de Dona Flor, senti a necessidade de fazer uma leitura mais leve e simples. Não que Dona Flor fosse um livro pesado, mas eu já estava ficando um pouco confusa com tantos personagens e a história ainda nem estava na metade.

O sono ainda não havia chegado e como a concentração para a história do Jorge Amado já tinha ido embora, resolvi pesquisar no Kindle, dentre os vários e-books que tenho lá, o que poderia saciar a minha vontade naquele momento.

Tentei ler Ligações, da Rainbow Rowell, mas ainda não era aquilo que precisava. Então surgiu Cartas, de Caio Fernando Abreu. Um relançamento, exclusivo em e-book, pela e-galáxia que reúne as correspondências enviadas por Caio aos seus amigos, como Maria Adelaide Amaral, Mario Prata, Hilda Hilst.

Era o que eu precisava para aquecer aquele início de madrugada. As cartas de Caio são pura poesia, literatura, arte. São conselhos, reflexões sobre a vida. Comecei devagar, não sei quando vou terminar de ler, mas as palavras estão a me inspirar.

Em carta enviada a Bruna Lombardi, em 16 de fevereiro de 1981, Caio comenta sobre o novo livro da Bruna e faz uma espécie de desabafo/conselho que eu quero compartilhar com todo mundo:

Não deixe que esse tipo de comentário, mesquinho e destrutivo, bloqueie a sua criatividade. Está tudo muito ruim, e nós precisamos mais do que nunca ser solidários uns com os outros. Trocar estímulos. Assim: olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar de remar também.

Em tempo de pouca esperança, ouvir isso não dá uma força a mais? Ser solidário, trocar estímulos, faz toda diferença no meio do turbilhão de notícias ruins. Incentivar um amigo, dar crédito a um trabalho encontrado na internet, compartilhar projetos de conhecidos, fazer parcerias. Basta uma palavra ou gesto de bondade para que o dia de alguém fique melhor e, assim, o nosso dia também. Vamos estar abertos a ouvir, a falar, a compartilhar e a criar juntos.

Estamos todos no mesmo barco. E como disse o Caio para Bruna, a gente sabe que ele está furado, e já que sabemos disso, vamos juntos tentar não deixar afundá-lo de vez. certo?

Te ver remar me faz querer remar também.

2 Comentários

  1. já conhecia um trechinho desa carta (e nem sabia que era uma carta!) e amava. conhecer o contexto disso deixou a ainda melhor, amei o post ♥️

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