
Confesso que ainda acho estranho não considerar a quantidade de livros lidos como o primeiro critério para fazer uma recapitulação das leituras do ano de 2025. Venho tentando mudar a ideia de que um bom ano literário é sobre quantidade. Assim como fugir da pergunta padrão de quantos livros leu no mês ou no ano. E, consequentemente, fugir de exibir o quantitativo como um troféu se for um número acima de X (não sei, 12?) e esconder se for abaixo de X – seja lá que X for esse.
Exibir o número é sintoma da nossa sociedade do desempenho que gosta de medir tudo. Temos que saber o quantitativo e criar uma tabela de acompanhamento. Por aqui estou tentando fazer diferente. É estranho, já disse. Mas tem sido uma boa tentativa porque, nisso tudo, eu só sei que estou e continuo lendo.
Meu 2025 literário foi guiado por dois projetos, o Clube do Livro Alagoinhas (CLA) e Leitura anti-scrolling. O CLA é o projeto de incentivo à leitura que organizo, desde 2017, na minha cidade natal, Alagoinhas (BA), na modalidade presencial. São 8 anos de muitas leituras, risadas, conversas e afetos mediados pela literatura. Já, o Leitura anti-scrolling é um projeto pessoal que faço desde 2024 para diminuir o tempo em redes sociais digitais, principalmente o Instagram (RIP 2011-2025) e TikTok. A proposta é ler livros de temas e autores/autoras que estão em alta na internet. Vou direto na fonte em vez de ficar rolando os feeds e consumindo conteúdo fragmentado de livros ou até mesmo lendo trechos sem a autoria devida.
Com esses guias, o 2025 foi marcado por releituras, descobertas de novas autoras, leituras de puro entretenimento e imersão literária em algumas autoras e autores.
Comecei o ano com a releitura de Fim, da Fernanda Torres (Companhia das Letras, 2013). E Fim é uma grande “casa dos homens”, como descreve Valeska Zanello no livro A Prateleira do Amor: Sobre Mulheres, Homens e Relações (Appris Editora, 2022), que foi uma leitura que fiz como anti-scrolling e conectou perfeitamente com a obra da Torres. Temas como cultura patriarcal, machismo, sexismo e suas reverberações nas relações amorosas, casamentos, escolhas profissionais, amizades e expectativas de vida estão presentes na ficção de Torres e na teoria de Valeska.
Outra releitura (também para o CLA) foi o divertido A morte e a morte de Quincas Berro D’água, do meu amado Jorge (Companhia das Letras, 2008). Escolhi ter uma experiência diferente e ouvi o audiobook. Só veio a confirmação de que não sou uma leitora de audiobook. Eu preciso ter algo físico para materializar um pouco a história e me ajudar com atenção. Do contrário, eu faço viagens imaginativas para além da ficção do momento. Sorte que já conhecia a história pelo livro e pelo filme. Então foi um pouco tranquilo chegar ao final.
Descobri duas autoras que adorei. A primeira foi a brasileira Verônica Botelho com a sua série Estações de que li Verão e Inverno, ambos publicados pela Galáxia. A série Estações aborda a complexidade das relações interraciais no Brasil. A partir de Verão e Inverno, podemos discutir questões interseccionais que são fundamentais em uma sociedade plural como a nossa. Por aqui, Verônica e seus livros foram excelentes achados literários. Aguardo empolgada pelo próximo volume!
>> Leia também: Série Estações, de Verônica Botelho
A segunda foi Valérie Perrin, escritora francesa publicada no Brasil pela Intrínseca. Comecei por Água fresca para as flores (tradução de Carolina Selvatici) que foi um livro que devorei. Não conseguia parar de ler. Uma obra sobre lutos e perdas, mas sobre vida além do luto e da perda. Boa escrita, envolvente, com personagens complexas e bem construídas. Vale cada página! E fiquei com muita vontade de ver tudo na televisão ou no cinema. Acabei fazendo uma imersão literária Valérie Perrin. Pouco tempo depois, comecei Três (tradução de Julia Sobral Campos), que não me fisgou tanto e acabei pausando a leitura. Só que não desisti da Valérie e minha última leitura do ano foi Querida Tia (tradução de Sofia Soter). E aí sim reencontrei aquele brilho de Água fresca com menos intensidade, mas ainda assim com aquela pegada Perrin que me encantou.
E já que comentei da imersão literária Valérie Perrin, vou puxar logo as outras imersões que fiz: Marcelo Rubens Paiva e Aline Bei. Comecei a imersão Marcelo com Ainda estou aqui (Companhia das Letras, 2015). O livro é excelente. Através da vida dos pais, Marcelo utiliza a literatura para seguir denunciando e rememorando o terror que foi a ditadura militar no Brasil – “um crime contra a humanidade!”. Em seguida, li Feliz ano velho (Companhia das Letras, 2015) e gostei bastante. Encontrei muita acidez, ironia e crítica à sociedade, ao mundo e até a Deus (por que ele?). Foi interessante acompanhar as descobertas, redescobertas, e de lembrar com Marcelo da vida até os 20 anos de um rapaz que soube aproveitar muito da liberdade de ser homem. Para mim, o ponto alto é ele descobrir que existia outro mundo, o mundo das pessoas com deficiência e que agora ele fazia parte desse mundo.
A outra imersão literária foi com Aline Bei. Gosto da habilidade que Aline tem de abordar temas complexos e espinhosos com prosa poética. Em 2025, li Uma delicada coleção de ausências e Pequena coreografia do adeus, todos publicados pela Companhia das Letras. Gostei mais de Uma delicada coleção de ausências. Um livro sobre silêncios, ausências e sobrevivência. Abuso infantil em contexto familiar. Uma denúncia breve sobre a cultura patriarcal que culpabiliza as mulheres.
Para finalizar não posso deixar de comentar que: adorei ter ranço de Chiamaka em A contagem dos sonhos, da Chimamanda Ngozi Adichie (tradução de Julia Romeu, Companhia das Letras, 2025); amei imaginar a vida no povoado de Mata Doce (Luciany Aparecida, Alfaguara, 2023); e a conversa que Alexandre Coimbra fez com Milton Nascimento, Paulo Freire e Ailton Krenak em A esperança a gente planta (Editora Paidós, 2025) também me fez esperançar por aqui.
Para 2026? Sem metas. Apenas sigo com meus projetos guias e aquele desejo de passar mais tempo entre páginas que misturam um pouco de fantasia e um pouco realidade.
Livros na Amazon:
A morte e a morte de Quincas Berro D’água
Uma delicada coleção de ausências
Esta publicação faz parte do projeto EntreBlogs.
Originalmente publicado na Notas da Vida (newsletter Substack). Se prefere receber primeiro na newsletter, se inscreva aqui.



Oi Jeniffer!
Adorei sua retrospectiva e a quantidade ali (mesmo você não considerando muito) me surpreendeu. Pra mim, que ultimamente só estou lendo livros duvidosos, acho incrível demais quando a lista é tão interessante. Vários me chamaram a atenção pelo nome…
A ideia da leitura anti-srolling achei genial! A TAG livros (que eu era assinante) trazia um box com um livro, mimo e uma revista – essa revista falando sobre o livro, as artes e uma entrevista bacana com cada escritor. A ideia de ir direto na fonte me lembrou muito disso, até pq uma vez uma autora estrangeira fez uma live com a TAG e elogiou muito os brasileiros, dizendo que eles vinham interagir com ela pra ter mais nuances da obra.
Se eu fosse da sua cidade, já ia querer me inscrever pro clube presencial!
Abração! Ótimo 2026 pra você! <3
https://falacatarina.com/
Oie, Bruna! Obrigada por comentar! Que legal sua experiência com a TAG. Nunca fui assinante, mas acho a proposta boa, inclusive para quem quer manter o hábito de ler.
Boas leituras para você em 2026!
Um abraço!