Aproveitando a temática de março do projeto Cadernos Compartilhados, eu quero indicar novamente autoras que descobri nos últimos meses e que ainda estão no meu radar literário. Não perco uma oportunidade de fortalecer o movimento #LeiaMulheres.
1. Eliana Alves Cruz
Já faz um tempo que vejo bons comentários sobre a literatura de Eliana Alves Cruz. E como não sou imune ao marketing editorial e ao algoritmo, acabei pegando Meridiana (Companhia das Letras, 2025) para ler.
Após finalizar a leitura, só pensei que Meridiana é um livro “muito Brasil”. Nosso Brasil é um país da classe trabalhadora. A grande maioria da população vive do/para trabalho, principalmente, para sobreviver. Temos muitos trabalhadores informais, precarizados, que continuam nessa situação porque precisam ter algum dinheiro no final da semana ou no final do mês para comer. Também somos o país em que a mudança de melhoria de vida acontece por meio da educação – ingressar em um curso técnico, fazer graduação, passar em um concurso público muda/ mudou o status social de muita gente. Meridiana é um retrato justamente de uma família que ascende socialmente porque Ernesto, homem negro que nasceu e cresceu na favela, o pai de Meridiana, passa em um concurso e se torna funcionário público.
A partir desse contexto, pensamos em questões sociais e econômicas, levando em consideração a interseccionalidade. Apesar de uma família pobre passar a ser o que chamamos de classe média e ir morar em um condomínio, isso não apaga outras marcações sociais como raça, gênero e sexualidade. Eliana criou seis personagens – Ernesto, Aurora, Zuleica, César, Augusto e Meridiana – para nos lembrar que mesmo tentando silenciar o passado, a sociedade brasileira ainda impõe valores do passado no contemporâneo. Por isso é emblemática a frase de Meridiana para Nandi: “[…] a única maneira que tenho de responder quem você é… é te contar de onde você veio” (p. 168).
Não importa aonde você chegou, a sociedade vai querer saber de quem você é filho, de onde você saiu, qual o seu sobrenome, principalmente, se você for uma pessoa negra, parda, indígena. A leitura de Meridiana me recordou o livro De onde eles vêm, do Jeferson Tenório, que ao tratar sobre cotas raciais em universidades públicas, também denuncia a falta de políticas de permanência dos estudantes nesses espaços que não foram pensados para pessoas como eles.
Em Meridiana, Eliana não fala sobre políticas de permanência, mas retrata episódios cotidianos de resistência, um cotidiano político, que Meridiana, Zuleica e tantas outras pessoas negras precisam criar para viver/usufruir dos ganhos da ascensão econômica.
Gostei tanto da leitura de Meridiana que comecei a ler, logo em seguida, Solitária (Companhia das Letras, 2022). O tema principal é o descaso com as trabalhadoras domésticas. É um livro muito forte! E podemos discutir sobre segregação socioespacial – o “quartinho de empregada”, “o elevador de serviço”, “a porta de serviço”; educação como forma de (auto)conhecimento crítico; invisibilidade de algumas classes de trabalhadores e de pessoas negras; trabalho em situação análoga à escravidão.
“Hoje fico com pena do sacrifício que era se tornar invisível. Além dos espaços apertados que ocupávamos, o silêncio era um companheiro. Uma boa serviçal é silenciosa, e a criança que é filha dessa mulher também deve ser. Ela não podia rir como uma criança, não pode pular ou fazer travessuras como uma criança. Ela não é uma criança. É um incômodo, alguém apenas tolerado” (p. 97).
Quis continuar a imersão literária Eliana Alves Cruz, mas algumas outras leituras precisavam de atenção. Só que sigo aqui paquerando Nada digo de ti, que em ti não veja (Pallas Editora, 2020) e Água de Barrela (Editora Malê, 2020).
Um vídeo para ver e ouvir Eliana:
2. Valérie Perrin
Valérie Perrin, é uma escritora francesa publicada no Brasil pela Intrínseca. Comecei por Água fresca para as flores (tradução de Carolina Selvatici) que foi um livro que devorei. Não conseguia parar de ler. Uma obra sobre lutos e perdas, mas sobre vida além do luto e da perda. Boa escrita, envolvente, com personagens complexas e bem construídas. Vale cada página! E fiquei com muita vontade de ver tudo na televisão ou no cinema. Acabei fazendo uma imersão literária Valérie Perrin. Pouco tempo depois, comecei Três (tradução de Julia Sobral Campos), que não me fisgou tanto e acabei pausando a leitura. Só que não desisti da Valérie e minha última leitura do ano foi Querida Tia (tradução de Sofia Soter). E aí sim reencontrei aquele brilho de Água fresca com menos intensidade, mas ainda assim com aquela pegada Perrin que me encantou.
Livros citados na Amazon:




