Fotografia: Uma outra forma de respirar mais profundo 

Jeniffer Geraldine por Jéssica Brandão (na faculdade de Comunicação)

Uma das grandes surpresas da faculdade de Comunicação foi a fotografia. Tive a oportunidade de estudar e praticar a fotografia analógica e digital. Eu já flertava um pouco com a Tekpix, o Paint, o Flogão e o Fotolog, como uma boa millenials (a gente já se chamava assim? Eu acho que não). Tekpix, Cyber shot, a primeira Canon Rebel Xti, e, então, o primeiro smartphone, depois o primeiro iPhone. O dispositivo foi mudando e a experiência de fotografar foi se adaptando a cada dispositivo.  

Em maio, eu li uma entrevista com o fotógrafo Sebastião Salgado, na VEJA SP. Salgado foi um dos profissionais que eu estudei durante a graduação e que colaborou com o meu encantamento com a fotografia. Na entrevista, ele diz que a fotografia de celular é uma “nova linguagem de comunicação através da imagem que a gente captura nos nossos telefones. Mas fotografia é outra coisa (mais profunda)”.  

Sebastião defende a fotografia como um “espelho da sociedade”, “um recorte representativo da nossa sociedade”, uma prática que tem como papel ser a memória do corpo social.  Entendo a diferenciação que o Salgado faz entre a fotografia de celular e a Fotografia (com a primeira letra maiúscula para mostrar a autoridade/superioridade proposta pelo fotógrafo). E vou pegar carona nessa diferenciação para dizer que a fotografia de celular é também o “espelho da sociedade”, “um recorte representativo da nossa sociedade”, da nossa sociedade hiper conectada, acelerada, imediatista, a sociedade do espetáculo, aquela que tem uma memória efêmera, a que captura para todo mundo vê, porque ser visto é o que mais importa.  

Pagamos caro para visitar pontos turísticos e tirar a mesma foto que vimos no Instagram. Colecionamos momentos iguais a vários desconhecidos, uma espécie de inveja turística digital coletiva. Inclusive aceleramos a experiência para não perder a oportunidade e dar logo a vez para o próximo da fila.  

Bem, eu sou bellhooksniana, e aprendi com ela a fazer a autocrítica. Vou criticar o inimigo externo, mas antes vou confrontar o inimigo interno porque vamos preservar também a honestidade e a coerência (risos).  

Quando comecei a me aproximar da fotografia de celular, deixei a Fotografia de lado. Entrei na onda do clicar e publicar instantaneamente. Eu clicava para publicar. E não mais para exercer a minha criatividade ou para fazer algo que eu gostava tanto: andar por aí prestando atenção e registrando coisas que eu não sei o nome. As câmeras ficaram enfileiradas na estante de livros enquanto eu saía com o celular e o Kindle na bolsa. Clicar e publicar. Registro instantâneo. O meu pequeno reality show de imagens. Os likes. Os comentários. A bateria em 10%. É preciso parar porque tem que chamar o Uber também. 

Mas eu comecei a querer desacelerar vários âmbitos da minha vida porque percebi que estava acelerada demais e isso não estava me fazendo bem de modo geral. Slow down, you crazy child. Aproveito para dizer que desacelerar não é necessariamente andar devagar, mas sim entender e respeitar o seu ritmo dentro de uma sociedade que tem como valores a velocidade e o produtivismo. É se perguntar: Até onde eu posso ir, até onde eu aguento ir, nesta sociedade do desempenho e da produção, para viver bem sem me esgotar, sem adoecer?  

Resgatei a velha ideia de ter um hobby, um passatempo, uma atividade que a gente faz porque gosta, nos dá satisfação, nos relaxa e, principalmente, a gente não precisa ser uma profissional super capacitada. O hobby não precisa ser mais um grande estudo, mais uma grande meta a ser atingida no final do ano. Foi assim que eu tirei a poeira das minhas câmeras fotográficas. Coloquei para carregar. Limpei alguns cartões de memória, o que me fez rever algumas fotografias esquecidas neles. E fiz um acordo afetuoso comigo: a partir de agora, qualquer viagem, qualquer passeio, qualquer evento, vou levar uma das câmeras.  

Melhor acordo afetuoso do ano. Me fez lembrar porque me apaixonei pela fotografia e amava as saídas fotográficas na faculdade. É sempre terapêutico. É sempre valioso. Fotografia me faz andar mais devagar, aqui também no sentido de diminuir o ritmo do passo para olhar os detalhes, para experienciar, apreciar, ser paciente e esperar o melhor momento do clique. Amo e me faz bem. É uma outra forma que encontrei de respirar mais profundo.  

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3 comentários em “Fotografia: Uma outra forma de respirar mais profundo ”

  1. Tenho pensado muito nessa coisa do clicar pra postar também… não tenho mais minhas saudosas câmeras digitais, mas deu até vontade de arrumar uma viu

    • Tem sido bom fazer esse movimento por aqui. 😉

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