Descansar

“Quem te ensinou a descansar?” – essa foi a pergunta que fizeram para Tricia Hersey, autora de Descansar é resistir: um manifesto (tradução de Steffany Dias, Editora Fontanar, 2024). Tricia foi impactada por essa pergunta simples e reflete que ninguém passou dicas e orientações sobre o descanso intencional

“As pessoas da minha vida encontraram espaços para descansar enquanto vivenciavam uma cultura racista e trabalhavam em um ciclo de esforço excessivo para sobreviver” (p. 43). 

As inspirações de Tricia são a Avó e o Pai. A Avó que tinha o hábito de “descansar os olhos” e o pai que acordava duas horas antes do trabalho para ler jornais, estudar a bíblia e orar. Ele dizia para Tricia que queria ter uns momentos só para ele antes de iniciar o trabalho. Um momento que a autora definiu como “Um momento para ser humano e se acomodar em seu corpo, para se conectar com o criador. Um momento para existir antes de iniciar o trabalho de limpar vagões de trem” (p. 47).  

Tricia relata que o amor do pai pela comunidade e por Deus era um combustível, mas que havia um lado tóxico. Houve muita devoção, muito trabalho, muita exaustão, que o levaram a ter problemas de saúde. 

A pergunta que fizeram para Tricia reverberou por aqui. Já ouvi a frase “descansando os olhos” de minha Avó. Mas ela usa como uma tentativa de não admitir que está tirando uma soneca da tarde. É como se no auge dos seus mais de 80 anos, ela ainda não tivesse permissão para descansar. Se ela não tem, imagine os mais jovens. 

As reflexões de Tricia só me fizeram reafirmar que todos nós temos a cultura da produtividade excessiva internalizada. A grande característica da sociedade moderna, conforme Hartmut Rosa (2019), é a dinamização, o que requer crescimento, aceleração e inovações. Mas pesamos a mão ao lançar essa tríade em todas as esferas da vida de forma constante e sem pausas. Ganhamos tempo com a atualização, tecnologia e velocidade. Mas, ao invés de utilizá-lo para descanso, lazer e outras atividades vistas como não úteis, do ponto de vista capitalista neoliberal, nós colocamos mais trabalho e fizemos o motor do capital girar ainda mais rápido. Continuamos a valorizar um dos princípios da sociedade clássica, o trabalho como forma de simbolizar o valor humano.  

A gente não descansa há muito tempo. E estou aqui falando junto com a Tricia do descanso intencional. Simplesmente descansar. E não descansar para trabalhar mais e melhor. Mas sim fazer o exercício de deixar de ecoar o pensamento vazio dos brancos de que “não consegue conviver com a ideia de viver à toa no mundo, acham que o trabalho é a razão da existência”, como defende Ailton Krenak no maravilhoso A vida não é útil (Companhia das Letras, 2020). 

Meu Deus, mas viver à toa no mundo é coisa de gente vagabunda, Ailton! Que é isso, mestre?!  

Se Ailton não for suficiente, deixa eu chamar o Nêgo Bispo que dizia que gostava mesmo era de vadiar. Temos que chamar esses outros para a conversa porque são resistência ao modo de vida capitalista. A gente tem a mania de ficar olhando para a grama do vizinho e achando que ela é mais verde que a nossa. Eu estou por aqui olhando para o quintal do Krenak e do Nêgo Bispo para ver se aprendo alguma outra coisa sobre viver neste “mundo de mercadoria e consumo” (Krenak, 2020).  

E aí eu lembro do tão esperado período de férias. Primeiro vou começar com as férias na época da adolescência em que eu e minhas primas contávamos os dias para passar pelo menos dois meses na praia, simplesmente à toa. Era um sonho não ter as obrigações escolares para cumprir. Mas, ao chegar lá, nos deparávamos com um oásis de desaceleração (Rosa, 2019) que ninguém estava acostumado. A cidade não tinha muitos atrativos, além da praia e da praça, que eram espaços mais movimentados nos finais de semana. Então nós passávamos parte dos dias de semana dentro de casa, quase sempre deitadas no quarto, mexendo em nossos celulares ainda tijolões com jogos de cobrinha e SMS, ouvindo algumas músicas nos nossos mp3 players, dividindo o fone de ouvido. E quando estávamos nesses cenários ouvíamos das nossas mais velhas para sair do quarto e procurar alguma coisa para fazer. Mas o quê? Se não tinha nada. Nós estávamos à toa. Lidando com o tédio. E não tínhamos permissão de fazer isso sem ouvir os gritos das nossas mais velhas.  

Finge que tem uma máquina do tempo e vamos para final de 2025 e início de 2026. Nós todas de volta à mesma cidade, à mesma casa na praia, inventando o que fazer toda hora porque simplesmente não conseguimos mais ficar à toa no quarto. É um rolê na praia, na praça, algumas leituras, muito conteúdo consumido através do smartphone, a televisão ligada o dia inteiro, um churrasco inventado do nada. E, sim, alguns passeios, algumas conversas em família, muitas risadas e resenhas. Mas um conserto aqui e outro acolá na casa que estava precisando de muitos reparos. Entre outras atividades. Nós não conseguimos ficar à toa, mas tudo isso aí que relatei é descanso e férias, graças a Deus. A única diferença é que não estamos trabalhando fora de casa, numa empresa ou instituição.  

Quando voltei para minha casa, ainda em recesso, estava cansada dos dias de descanso na praia. E eu me forcei a tentar descansar. Descobri que ainda tenho dificuldades em saber o que é isso. Assim como a Tricia ninguém me ensinou a descansar. Não tive dicas e orientações. Mas depois de um burnout você precisa encontrar meios de descobrir o que significa descanso para você, cá no seu íntimo, com os seus botões. No meu caso? Dormir, ficar em silêncio, ouvir minhas músicas preferidas das antigas e assistir uma série antiga que tenha umas três temporadas simplesmente para eu embarcar na história e esquecer da vida real com os compromissos e afazeres. Pelo menos nesse período de recesso, que tenho direito por trabalhar em algumas instituições. Sei lá se eu ia me permitir ter recesso se não trabalhasse. Não sei ficar à toa, Nêgo Bispo e Krenak! Quero aprender! Acho mesmo que é uma microrrevolução pessoal.  

Hoje eu comecei a ler Meridiana, de Eliana Alves Cruz (Companhia das Letras, 2025), e o personagem Ernesto falou algo que tocou aqui: “[…] queria a liberdade de dar atenção a coisas aparentemente sem utilidade, porque passei a vida achando que prazer não me ajudaria em nada com os meus boletos e o imposto de renda” (p. 45).  

Tenho uma Tia que, certa vez, no auge do Baile da Santinha (o ensaio de verão do gigante Léo Santana) cochilou em pé. Hoje isso é motivo de muita risada e resenha entre a gente. Mas a resposta dela nos marcou também: “Eu viro a noite no plantão. Então, vou virar a noite no Baile da Santinha, sim! Mesmo que para isso eu tenha que cochilar em pé em algum momento”. 

Claro que aqui nós temos um episódio de negociação com a exaustão. Mas ao mesmo tempo era ela tentando se lembrar de que a vida poderia ser além dos plantões. Era ela exercitando um pouco a liberdade de dar atenção a coisas aparentemente sem utilidade – dançar, ouvir música e estar com amigos – nesta sociedade que trabalhar 100% sempre é o que ainda faz você ter valor.  

Se ninguém nos ensinou a descansar, agora a gente está precisando aprender. Pode ser com outros mestres, como o Krenak, o Nêgo Bispo, olhando outros quintais por aí. Ou fazendo o exercício íntimo de nos perguntar: “O que é descanso para mim?”. Mas para além dessa busca por um significado, a gente precisa se permitir descansar. Sempre. Todo dia um pouco. E não apenas seguindo um calendário institucionalizado.  


Livros citados: 

Descansar é resistir: Um manifesto 

Aceleração: A transformação das estruturas temporais na modernidade (Hartmut Rosa, 2019) 

A vida não é útil 

Meridiana 


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5 comentários em “Descansar

  1. caraca que seu texto bateu muito com minhas leituras e experiências recentes… essa questão do descanso realmente se tornou um tabu contemporâneo. achei legal tu comentar das experiências da praia, de fazer nada, apenas jogar, mandar SMS que eram limitados e do tédio. tenho lido muito byung-chul han, e apesar de criticado muitas vezes, vejo muito sentido em como ele simplifica nosso ritmo hoje, em que nos permitimos estar sob estímulos constantes e o tédio, a pausa, a contemplação se tornam quase crimes, e nós mesmo nos condicionamos pra isso. acredito que o real descanso é algo que não nos permitimos mais por medo, que é se perder, não sabe o que vai acontecer em seguida, estarmos perdidos, sem projetar, sem expectativas, apenas ‘estar’… com sorte encontramos algumas brechas, espero que continuemos na verdade =D boa semana

    • Leio o Byung também. Concordo com muito do que ele diz! Obrigada por comentar e compartilhar suas reflexões! Vamos continuar tentando. Boa semana!

  2. Me identifiquei muito com esse post. Quando tenho um tempo para descansar, sempre fico pensando que é errado e que devia estar fazendo algo de produtivo. É difícil aprender a descansar numa sociedade que promove a produtividade a um nível absurdo. Até os hobbies têm de virar retorno.

    • Verdade, Inês! Vamos seguir tentando fazer diferente para o nosso bem!

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