Vixi, faltou luz!

Vixi, faltou luz!

Estava no meio de uma ligação, com o ventilador praticamente em cima de mim, quando de repente senti que aquele ventinho fresco havia parado de soprar no meu pescoço.

Quando me virei para checar o ventilador, ele não estava funcionando. Olhei para a impressora e ela havia desligado.

E, aí, a ficha caiu: vixi, faltou luz!

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O atendente ficou sem entender porque comecei a conversar sozinha.

Vixi, deve ter explodido alguma coisa por aí. Bem que eu ouvi um barulho.

Eram cerca de onze horas da manhã e eu comecei a andar pelo apartamento, tirando tudo das tomadas.

É algo que aprendi com a família. Quando falta energia elétrica, a gente tira tudo da tomada para não queimar nada quando ela voltar. Esse aprendizado veio da mesma sabedoria de cobrir os espelhos quando está trovejando.

Olhei para o celular e tinha 24% de bateria.

Nem acreditei nisso.

Graças a Deus tinha fósforo e deu para acender o fogo e esquentar a comida.

É assim que a gente esquenta comida quando não tem microondas?

Hoje a gente vive no automático que eu nem lembrava mais disso. Mas achei que a comida ficou mais saborosa.

Depois do almoço tive que lidar com o calor.

Não corria um vento. Jesus, não estamos no outono?

Salvador segue no verão o ano inteiro.

Comecei a mandar mensagens no Whatsapp e fiz um tweet no Twitter.

Foi algo como: estou com 5% de bateria.

Pensando agora, essa mensagem soou como fim do mundo ou fim da vida. Eu hein…

O celular descarregou completamente. Ainda tinha bateria no notebook e no tablet. Mas sem internet serve?

Bem, eu tinha que estudar. Então sentei no lugar que julgo ser o mais fresco da casa, a sala. Com uma mão na caneta e outra revezando entre passar as páginas no tablet e me abanar com um classificador.

De repente, me questionei: que horas são?

Lembrei do celular. Eu não tenho relógio em casa. Vejo as horas pelo celular ou quando estou com qualquer outro aparelho eletrônico ligado.

Naquele momento eu havia até esquecido por um instante da possibilidade do tablet.

Lembrar do celular foi também lembrar das redes sociais e dos aplicativos.

Bebi água e não tinha como inserir a quantidade no aplicativo que me lembra de beber água. Mas pelo menos havia bebido água.

Lembrei que o celular descarregou na hora em que eu estava passando informação sobre um produto que vendo. Será que a moça recebeu a mensagem? Vai ver que o celular descarregou também porque ela é minha vizinha.

Será que meu pai recebeu a foto do copo do liquidificador que pedi para ele comprar?

Será que tem muita mensagem lá?

Continuei a estudar e o dia já começava a escurecer. Em breve a luz do tablet não seria mais suficiente para continuar com o fichamento.

Lembrei também de fazer o café da noite. Não tenho velas. Apenas uma lanterna e não sabia o quanto ela estava carregada e muito menos quando a luz ia voltar.

Então fiz logo o café.

Acabei de estudar a apostila. Que bom, pensei. Afinal a tarde calorenta sem energia havia sido produtiva.

E me perguntei: o que fazer agora?

Ainda tinha 20% de bateria no tablet. Aproveitei para finalizar a leitura de “O que o sol faz com as flores”, de Rupi Kaur.

Deitei na espreguiçadeira, no escuro, apenas com a luz do tablet, e embarquei naqueles poemas sobre murchar, cair, enraizar, crescer, florescer.

Até que ouvi um barulho vindo da geladeira e depois gritos dos vizinhos. Não era final de copa ou gol do Bahia, mas enfim a luz havia voltado, quase seis horas da noite.

Não me movi. Continuei na espreguiçadeira, lendo Rupi Kaur.

Estava confortável ali. O cair da noite trazia um vento bom. Eu estava cada vez mais conectada aos poemas. Estava mais conectada ao momento presente. Eu, no escuro da minha sala, apenas com a luz do tablet iluminando meu rosto e a poesia de Rupi Kaur iluminando minhas ideias.

Era assim que as pessoas passavam o tempo quando não havia luz ou quando a internet não era tão popular?

É assim que a gente passa o tempo de maneira produtiva e inspiradora?

Eu gostei. Vou fazer faltar luz de vez em quando.

Talvez mantenha só o ventilador funcionando. É… Talvez.

E as mensagens no celular? Depois de uma hora, com a bateria carregada em 70%, liguei o celular. Quando acessei o Whatsapp e vi aquelas mensagens chegando disparadamente, pensei: meu Deus, que desespero!

Mas estavam todas lá. Elas sempre estão. Todas as notificações. Todas as mensagens. Me esperando. Pareceu o mais certo. Elas esperando por mim. E não eu esperando por elas.

 

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Publicado porJeniffer Geraldine

escritora, jornalista, mestranda em crítica cultural


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