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Um diálogo com o prólogo de Úrsula

Meio da tarde. Calor de +30°. O vento que sai do ventilador é um sopro morno. Internet caiu pela milésima vez na semana. Resolvi recorrer aos livros para passar esse tempo de +30°.

Na lista infinita de livros para ler tem um que é prioridade por ser a leitura de novembro do clube do livro. A obra é “Úrsula”, da escritora maranhense Maria Firmina dos Reis.

Nunca tinha ouvido falar em Maria Firmina até esse ano quando vi algumas matérias circulando na internet sobre o primeiro livro de autoria feminina do Brasil. Antigamente me sentia meio culpada com acontecimentos do tipo, mas, hoje em dia, não sinto mais. A culpa definitivamente não é minha. Mas da nossa cultura patriarcal/masculina/heterossexual/branca/burguesa.

Iniciei a leitura do prólogo de Úrsula, na edição que fiz o download gratuito na Livraria da Câmara, e comecei a dialogar com Maria Firmina e outras leituras que fiz nos últimos tempos.

Em 1859, a autora começou o prólogo dizendo que o livro era “mesquinho e humilde”. Hoje é considerado a obra inaugural da literatura afro-brasileira, o primeiro romance de autoria feminina, e o primeiro com temática abolicionista, do Brasil. A obra de mesquinha e humilde não tinha/tem nada. Só que Firmina sabia o seu lugar de fala na sociedade da época, ela era mulher e negra. Ela era o ninguém do ninguém. O Outro do Outro, como diz Grada Kilomba ao pensar a mulher negra a partir do termo Outro, criado por Simone de Beauvoir.

Não é a vaidade de adquirir nome que me cega, nem o amor próprio de autor. Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher , e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem; com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo.

Então eu lembrei de Virginia Woolf e “Um teto todo seu”, o ensaio sobre mulher e ficção, de 1920. Woolf diz que quando uma mulher pensava em escrever algo, ela não era bem acolhida, como um homem. A mulher era questionada, muitas vezes ridicularizada. Afinal o que uma mulher tinha/tem para dizer sobre o mundo? O que há de bom na escrita de uma mulher?

Bem, muitas mulheres escreveram e ainda escrevem. Resistiram e ainda resistem. No prólogo, Firmina diz que quer mostrar ao mundo o seu filho, mesmo com todo defeito. Ela mostra o amor que tem por sua obra, seu trabalho. E diz aos leitores:

(…) não o abandoneis na sua humildade e obscuridade, senão morrerá à míngua, sentido e magoado, só afagado pelo carinho materno.

Qualquer pessoa que se dedique a escrever literatura quer ser lida e para ser lido deve chegar até o leitor. Esse percurso até o leitor é bastante complicado quando você não está dentro do que é considerado padrão. A professora Regina Dalcastagnè, em seu livro “Literatura brasileira: um território contestado”, diz que publicar um livro não torna ninguém escritor. Escritor é quem está nas prateleiras das livrarias, nas bibliotecas, nas resenhas em jornais e revistas, nos prêmios e feiras literários. Quem é visto nesses lugares é lido pelos leitores.

E quem é visto nesses lugares? Não são pessoas como Maria Firmina dos Reis.

A autora faz um pedido que estou aqui para reforçar, vamos deixar que mais “Úrsula”, tímida e acanhada, sem dotes da natureza, nem enfeites e louçanias de arte, caminhe entre nós e nas prateleiras de nossas estantes.

Conteúdo em vídeo:


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Publicado em Crônicas Literatura

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