Um amor extra forte, por favor

Desde o princípio, a vida se transforma conforme a incidência de luz; as pessoas, com a chegada de outras. Uma chegada é um enigma.

A condição indestrutível de ter sido (Helena Terra)

Na literatura temos autores especialistas em romances românticos, nos quais os personagens passam por alguns conflitos, mas no final eles vão viver o “feliz para sempre”, um exemplo é o autor Nicholas Sparks, sucesso de vendas. Entendo até o motivo do sucesso, afinal um pouco de esperança faz bem.

Mas em contrapartida ao amor romântico, alguns autores preferem histórias mais reais, com separações, desilusões, perdas, conflitos. E como disse o professor Schianberg, personagem do livro de Marçal Aquino, alguns amores podem nos levar à ruína, ou seja, nem sempre teremos o final feliz como esperado.

No livro Travessuras da menina má (Alfaguara, 2006), do peruano Mario Vargas Llosa, temos duas pessoas com personalidades e projetos de vida diferentes que se apaixonam: Ricardo Somocurcio, um peruano simples e modesto que tem como sonho de vida morar em Paris e Lily, a menina má,  ambiciosa e aventureira, que gosta do luxo e para conseguir viver na riqueza se joga no mundo sem medos. Eles se conheceram quando eram crianças e Ricardo nunca esqueceu a chilenita.

Ricardito realizou seu sonho de morar em Paris e tornou-se tradutor da UNESCO e Lily não se conformava com a vida modesta que ele levava. Ela queria o mundo enquanto ele queria apenas ela. Sua felicidade estaria completa em apenas viver ao lado da mulher que sempre desejou. Isso acontece na vida real. Quantas pessoas não abandonam sonhos para ficar ao lado de quem gosta? Só que Lily não abandonou o seu desejo de conhecer o mundo e partiu para viver aventuras e ao final delas, reaparecia na vida de Ricardito. Era como se ele fosse o seu coffee breake, enquanto ela era uma doença para o bom moço.

Lily era uma mulher em cada lugar que passava e Ricardo conseguia amá-la de todas as maneiras. Parece romance barato, mas não é. É romance com passagens fortes e cenas cheias de paixão. Tem muita breguice, mas também realidade. Mostra o que as escolhas, ao passar do tempo, fazem com a vida dos personagens que não são perfeitos e como bons humanos, erram e vivem com o peso desses erros.

Com o passar dos anos, eu me tornei igual a você. Para conseguir o que quer, vale tudo. São palavras suas, menina má. E, como você sabe perfeitamente, a única coisa que quero de verdade nesse mundo é você. – pag. 127

O brasileiro Marçal Aquino também fala do sofrimento que é amar em seu livro Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Companhia das Letras, 2005). A vida do fotógrafo Cauby muda completamente quando ele conhece Lavínia, a mulher que “tinha uma luz particular, só dela, e um ar de quem poderia ser o que quisesse na vida”. Lavínia é esposa do pastor Ernani, homem que a tirou das ruas e das drogas. Mas além de ser aquela  “colorida em meio ao cinzento”, ela era duas: Lavínia, a menina traumatizada, mulher do pastor, o amor de Cauby e a Lavínia doida, ou como Cauby gostava de chamá-la, Shirley.

Retomo o livro e leio mais um trecho grifado: o professor Schianberg diz que a natureza do amor, de não nos permitir escolher por quem nos apaixonamos, é uma rota que pode conduzir à ruína. Entendo por que Schianberg escreveu isso. E dou razão a ele. Alguns amores levam à ruína. Eu soube disso desde a primeira vez em que Lavínia entrou na minha casa.

Cauby se apaixonou por uma mulher casada e que tinha um passado turbulento. Não foi escolha dele se apaixonar por alguém assim, mas aconteceu e ele quis viver a loucura que era esse amor. A narrativa é envolvente e tão real que parece que lemos sobre a vida de Cauby nas páginas de algum jornal. E se não bastasse tudo isso, Aquino cria o professor filósofo Schianberg que é citado inúmeras vezes por Cauby, na tentativa de com essas citações explicar algumas loucuras da vida e consequentemente as loucuras dos humanos. O fotógrafo segue a risca os ensinamentos de Schianberg, e por isso acreditava que nenhuma vida estaria completa sem um grande desastre. Então amar alguém como Lavínia foi o seu desastre, mas também a sua completude.

O trecho está grifado no livro. Nele, o professor Schianberg dá voz a Nietzsche — “Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura” —, para depois contestá-lo, lembrando que na loucura dos amores contrariados não há espaço nenhum para a razão, apenas para mais loucura.

bonsai-zambra foto jeniffer santos

Já o escritor chileno Alejandro Zambra resolveu nos contar sobre o fim de um amor. Não vamos acompanhar o nascer de uma paixão, mas sim o que aconteceu com os seus amantes quando o relacionamento terminou. Em Bonsai ( tradução de Josely Vianna Baptista/ Cosac Naify, 2012) conhecemos a vida de Julio depois de Emilia e a vida de Emilia depois de Julio. Eu acredito que cada pessoa que passa por nossa vida deixa um pouco de si conosco, na história de Zambra nós vamos descobrir o que ficou de Julio em Emilia e o que de Emilia ficou em Julio.

No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura. – pag 10

Se Zambra narrou o fim de um amor em 96 páginas, a brasileira Helena Terra nos mostra a beleza que existe na construção e desconstrução de um amor em apenas 80 páginas, com seu livro A condição indestrutível de ter sido (Dublinense, 2013).

A narradora conhece Mauro em um blog coletivo, se apaixona por ele e faz de tudo para viver essa paixão, mas Mau mora em outra cidade e é casado. Nesse livro encontrei um tema bem atual, a urgência de viver um amor. A personagem queria tanto ter esse relacionamento que esqueceu das consequências e não parou para encarar os fatos de um relação que já começou complicada.

Mas quem pensa muito com a razão quando encontra alguém que acredita ser a pessoa certa? É admirável a coragem da personagem em viver esse relacionamento e é ainda mais bonita a escrita poética de Helena que nos faz ver beleza no fim de um amor.

Criei para nós um céu de palavras e o habitei com uma atmosfera carregada de esperanças e de verbos. A esperança e o verbo eram o meu ar, as minhas nuvens, o meu amor. Sem eles, pouco me importaria ser de carne e osso e ter ou não uma cabeça, tronco e membros.

Os livros citados falam de amor mas de um tipo que chamo de extra forte, em que os personagens principais são levados ao extremo para viver aquilo que eles acreditam ser o “feliz para sempre”. São relacionamentos mais próximos da nossa realidade, com altos e baixos, desilusões, renúncias, escolhas e consequências. E como disse Cauby, “atire a primeira pedra aquele que não estremeceu ao recuperar, nos lençóis encardidos da cama em que dorme solitário, o cheiro da mulher ausente.”

 

 

 

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8 Comentários

  1. Pingback: [SNT #2] O amor está no ar! - Subindo no Telhado

  2. Anamaria Mattos Reply

    O livro de Vargas Llosa me impressionou mt! História bem contada, no ponto … não conseguir largar. Mesmo odiando a menina má … final mt coerente … Até comprei outro livro dele …. Esse ganhei de presente.
    Boa postagem!

  3. ConversadeLivro Reply

    Amei seu post, realmente este amor extra-forte é o que nos faz parar para pensar na vida. Dos livros que citou tenho as Travessuras da menina má e A condição indestrutível de ter sido. Ainda não li nenhum dos dois, mas agora estou morrendo de vontade. Beijos!

  4. Eu gosto de amores extra-fortes contidos, no estilo dos clássicos, sabe como é? Orgulho e Preconceito, Jane Eyre e por aí vai… A pessoa está morrendo por dentro, mas segura a onda. Não sei por aí fazendo maluquice.
    Mas gostei dessas dicas! Vou anotar aqui os que ainda não estavam na minha lista.
    Beijo! ^_^

    • Sei sim, Duda. Gostei bastante do Orgulho e Preconceito. E quero ler Jane Eyre.
      hahah pois é! tem gosto pra tudo nessa vida.
      😉
      Beijos!

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