Memória: o desejo de permanecer

Nos últimos dias, alguns acontecimentos me fizeram pensar sobre esquecimento e memória afetiva. Na quarta-feira de cinzas recebi logo cedo a notícia de que alguém muito importante na minha vida e da minha família havia falecido. Na mesma hora, me veio um filme na cabeça com todos os bons momentos que essa pessoa havia proporcionado para nós. Lembrei das visitas a fazenda, da água de coco, do bolo, de sentar na varanda no final de tarde.

Minha Mãe me deu a notícia seguida de um pedido: “Ela sempre me pediu pra rezar por ela quando se fosse desse mundo. Ela não tinha filhos… Rezarei. Reze também.” Eu rezei. Ela queria ser lembrada por nós em um momento de oração, um momento íntimo com Deus, esse era o seu pedido mais importante. E apesar de ter rezado e continuar rezando, o que ficou pra mim foram nossos momentos sentadas na varanda da fazenda. Talvez essa memória afetiva também seja uma espécie de oração.

Nesse mesmo dia, resolvi continuar minha maratona do Oscar 2018 e escolhi ver a animação “Viva – A vida é uma festa”. Um filme que trata sobre o Dia dos Mortos, tradição na cultura mexicana. E ao invés de ser um dia de tristeza, é um momento de alegria, que comemora com muita cor, música e dança, a visita das almas à terra.

Miguel é um menino apaixonado por música, mas na sua casa é proibido ouvir qualquer tipo de canção devido a um trauma familiar, seu tataravô abandonou a família para correr atrás do sonho de ser um grande músico. No Dia dos Mortos, Miguel resolve enfrentar a família e ir em busca também de sua paixão. E acaba vivendo uma aventura no mundo dos mortos. É uma animação belíssima e emocionante que através dessa família nos apresenta uma cultura diferente e muito bonita.

No Dia dos Mortos, enquanto do lado dos vivos a família decora a casa e prepara um altar com fotos dos seus entes queridos, do lado dos mortos, eles esperam ansiosos para saber se foram lembrados e que assim vão poder visitar a terra. Há um desejo em comum: não ser esquecido. Eles desejam manter-se vivos na memória de quem ficou.

O título original da animação é “Coco”, o nome da bisavó de Miguel. Ela já está velhinha e sua memória está indo embora. Coco é a única que ainda lembra do seu pai, o músico que abandonou a família. E aqui o filme coloca a música como memória afetiva. Enquanto a família Rivera negava a música, fazia o mesmo com parte importante da sua história e, principalmente, com um dos seus entes queridos. Para Coco a música era o que pra mim é hoje o sentar na varanda da fazenda, a nossa maneira de manter vivo quem se foi.

O ciclo que me fez pensar sobre esquecimento e memória afetiva só teve fim na última segunda-feira quando me despedi da série Napolitana, da escritora italiana Elena Ferrante. Foi impossível não fazer ligação com tudo que estava acontecendo porque essa tetralogia fala também sobre o desejo de permanecer. O diferencial é que esse desejo não parte de quem já foi, mas de quem ficou e deseja manter vivo alguém que foi importante em sua vida.

Os quatro livros da Séria Napolitana – A amiga genialHistória do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica, História da Menina Perdida – são narrados por  Elena Greco e conta a história da amizade dela e de Raffaela Cerullo, a Lila. O primeiro livro começa quando Greco recebe uma ligação do filho de Lila informando que a mãe havia desaparecido. Como maneira de não fazer com que a amiga caísse no esquecimento e também com raiva, Lenu (apelido de Greco) começa a escrever a história delas, tudo o que ficou na memória. A sua maneira de manter Lila viva era através da escrita.

E no último livro, A história da Menina Perdida, nossa narradora deixa claro que o desejo de manter Lila viva era algo dela, algo tão forte, que ela acreditava que também era um desejo de sua amiga: Eu amava Lila. Queria que ela durasse. Mas queria que fosse eu a fazê-la durar. Achava que era minha missão. Estava convicta de que ela mesma, desde menina, me atribuíra essa tarefa.

A história das amigas não é um mar de rosas, ou talvez seja mas com muitos espinhos. Apesar de termos acesso apenas a tudo o que ficou na memória de Lenu, não duvidei da sua narrativa. E mesmo com tantos conflitos, ela sempre preferiu relevar o seu passado e todos que fizeram parte dele.

Nossa memória tem a capacidade de reter tudo que acontece a nossa volta. E também é o desejo que temos de permanecer vivo em alguém ou no mundo. É um bom lugar para voltar e ter boas sensações, ou até enfrentar medos e seguir em frente de uma nova maneira.

Como a própria Lenu disse sobre sua vida com Lila, “seria desperdício estragar uma história dando espaço excessivo aos maus sentimentos: os maus sentimentos são inevitáveis, mas o essencial é represá-los”. E ainda  complemento, viva, a vida é uma festa!

Caso prefira, você pode acessar o conteúdo no formato vídeo:

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Lady Bird – A hora de voar

Com roteiro e direção de Greta Gerwig, a dramédia “Lady Bird – A hora de voar” recebeu cinco indicações ao Oscar 2018. Além de já ter sido o vencedor do Globo de Ouro em duas categorias (melhor filme cômico e melhor atriz em filme cômico). E Greta entrou para a história como a quinta mulher indicada ao prêmio de melhor direção.

Gerwig  também é roteirista de Frances Ha, um dos meus filmes favoritos da vida, que aborda o início difícil da vida adulta. Já em Lady Bird temos Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan) na transição entre a adolescência para fase jovem adulta. O que me conquista nos filmes da Greta é justamente o enfoque dado aos momentos de transição, que são quase sempre comédias dramáticas também na vida real.

Christine não gosta do seu nome, vive em Sacramento (também não gosta de Sacramento), estuda em um colégio católico, tem um relacionamento difícil com a mãe (ambas têm um gênio forte) e deseja sair voando para longe disso tudo, de preferência para uma faculdade em Nova York.

É interessante ver como ela nega tudo o que tem. Às vezes não fazemos isso? Acreditamos que o melhor não é o aqui e o agora? É algo ainda a ser conquistado e que não está próximo de onde estamos e nem no meio em que já vivemos. Lady Bird faz exatamente isso: nega tudo. Talvez por desejo de querer sempre mais (não há problema nisso se for em boa dosagem) e também por imaturidade.

O relacionamento com a mãe é outro ponto importante na dramédia. São parecidas, possuem gênios fortes, se amam, mas uma é o desafio da outra. A mãe Marion (Laurie Metcalf) tem uma postura que é definida e defendida, até pela própria Lady Bird, como um amor severo. O zelo excessivo, a crítica, a proteção são todos sinônimos de amor. Essa relação entre mãe e filha é parte importante na história e no amadurecimento de Lady Bird.

– Por que você não pode dizer que eu estou bonita?
– Pensei que você nem ligava pro que eu acho.
– Eu ainda quero que você ache que eu estou bonita.
– Desculpe, eu estava falando a verdade. Quer que eu minta?
– Não, eu só queria… Eu queria que você gostasse de mim.
– Claro que eu te amo.
– Mas você gosta de mim?
– Eu quero que você seja… a melhor versão de você que conseguir ser.
– E se essa já for a melhor versão?

Foi divertido e emocionante acompanhar a trajetória de Lady Bird. E o mais bonito é que na hora de voar, na hora que ela consegue ser quem queria ser, ela se reconhece como Christine, a menina católica de Sacramento, o que é uma parte do que ela é.

No final fica uma mensagem que toca bastante a menina que saiu da sua cidade natal aos 17 anos (eu): Voe por aí, mas não esqueça de onde você deu o primeiro impulso para voar. É sua história, sua vida, parte do que você é e sempre será, não adianta negar.

 

– Eu li seu ensaio da faculdade, você claramente ama Sacramento.

-Eu amo?

-Bem, você escreve sobre a cidade com tanto carinho e cuidado…

-Eu estava apenas descrevendo.

-Bom, pareceu amor.

-Claro, acho que presto atenção.

-Não acha que talvez sejam a mesma coisa? Amor e atenção?

Timothée Chalamet (Me chame pelo seu nome), Saorise Ronan e a diretora Greta Gerwig durante as gravações.

Universal Pictures iniciou em 8 de fevereiro uma série de pré-estreias pagas de “Lady Bird – A Hora de Voar” pelo Brasil. E a estreia está marcada para o dia 15 de fevereiro.

 

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Um poema sussurrado por alguém apaixonado

O título desse texto é uma citação do filme A forma da água, dirigido por Guillermo del Toro e que foi escrito por ele e Vanessa Taylor. O longa recebeu 13 indicações ao Oscar 2018, além de já ter recebido alguns outros prêmios importantes, como o Globo de Ouro de melhor diretor.

Escolhi esse título porque foi exatamente assim que me senti quando terminei de assistir o filme. A forma da água é uma história de amor, um conto de fadas sombrio, em que o monstro fica no final com a mocinha.  Toro, um apaixonado por monstros, fez questão de deixar claro sua referência e homenagem ao clássico O monstro da Lagoa Negra (1954).

Em A forma da Água temos Elisa, interpretada brilhantemente por Sally Hawkins, que é faxineira de uma base militar durante a década de 1960, período da Guerra Fria. Lá, Eliza se apaixona por um ser que foi encontrado e capturado pelo coronel Richard Strickland, vivido pelo ator Michael Shannon (que conseguimos odiar do início ao fim do filme). Essa criatura, vivida por Doug Jones, foi levada até o laboratório da base para ser estudada e quem sabe utilizada na guerra e na corrida espacial.

Elisa não fala, mas escuta. Sendo assim, a sua comunicação é feita através da linguagem de sinais, o que deu ao filme um silêncio encantador, além de uma calma e leveza poética. O mais interessante é que Elisa vai conseguir ensinar a linguagem de sinais a essa criatura e assim estabelecer uma comunicação mostrando também que esse ser é inteligente, pode se comunicar e entender emoções.

Através desse relacionamento entre espécies diferentes, A forma da água vai passar a mensagem de que toda forma de amor é válida, que é possível amar de diferentes maneiras. Uma das cenas mais encantadoras é quando Elisa conversa com seu melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e tenta explicar o motivo do seu amor por essa criatura. O motivo é bem simples, mas complexo em se tratando de relações e expectativas.

Quando ele olha para mim… O jeito que ele olha para mim… Ele não sabe o que falta em mim. Ou como sou incompleta. Ele só me vê pelo que sou. Como eu sou. E ele fica feliz em me ver, todas as vezes. Todos os dias.

O filme ainda tem algumas subtramas interessantes, como a do próprio coronel Strickland, um homem estressado que vive a pressão do seu trabalho, machista, e bem fácil de ser odiado por todos ao seu redor. Os amigos de Elisa também são pontos importantes na história, Giles é um artista solitário que vive triste por conta da idade e fracassos amorosos (falando bem superficialmente) e Zelda (Octavia Spencer) que é um símbolo da força da mulher no filme, ao mesmo tempo que seu personagem também nos faz pensar sobre desigualdade de gênero e preconceito racial.

E além de todo enredo, o filme também me encantou através da fotografia, cenário e trilha sonora. Permanece o tom verde na tela para reforçar o poder que água tem em toda história. E o cenário bem vintage com direito a Elisa morando na parte de cima de um cinema faz brilhar os olhos de quem gosta um pouco de nostalgia. A trilha sonora produzida por Alexandre Desplat (O Grande Hotel Budapeste) é daquelas de acalmar e vibrar o coração.

Acredito que fui enfeitiçada por esses elementos acima porque ao final do filme, eu me senti cheia de amor de um jeito estranho mas maravilhoso. Foi realmente como se tivessem sussurrado no meu ouvido um poema escrito por alguém apaixonado.

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