Me Indica Aí #1 – livro e filme do nordeste

Resolvi tirar da gaveta de ideias mais uma seção de conteúdo para meus canais, principalmente o Youtube e o Podcast.

“Me indica aí” é um quadro com indicações curtinhas mas bem boas de livros, filmes, séries, música, revistas e o que rolar.

Lembrando que tudo que eu indicar aqui, eu já vi, ouvi, ou li. E que meu olhar, minha análise, minha leitura, está mais relacionado com a mensagem que cada produção tem para nos passar do que com os detalhes técnicos.

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Mulheres no Cangaço

Quem era Maria, sem ser a Bonita, sem ser a personagem do imaginário popular?

Maria Bonita era/é um produto da indústria do entretenimento. Maria de Déa era uma mulher comum, nos anos 1920, que não seguiu o destino esperado por sua família e a sociedade do interior da Bahia. Ainda casada, se apaixonou por Virgulino Pereira, o Lampião, e foi viver com ele pelo sertão nordestino. Foi a primeira e única mulher que escolheu viver entre os cangaceiros. Todas as outras não tiveram a opção de escolha.

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“Não existe isso no Brasil”

Em plena segunda-feira, após quatro horas de chá de espera, chamaram meu nome e entrei no consultório do cardiologista. Já estava meio tensa e curiosa para saber como andava o meu coração, que não é tão velho de guerra assim, mas já está um pouco cansado.

– Está tudo bem, dona Jeniffer. Não vejo nada demais aqui. Vamos cuidar da alimentação, tomar sol, tentar relaxar mais. Vou passar algumas vitaminas.
– Ah, que bom!
– E, como vai a crítica cultural? O que é mesmo que está pesquisando?

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Um diálogo com o prólogo de Úrsula

Meio da tarde. Calor de +30°. O vento que sai do ventilador é um sopro morno. Internet caiu pela milésima vez na semana. Resolvi recorrer aos livros para passar esse tempo de +30°.

Na lista infinita de livros para ler tem um que é prioridade por ser a leitura de novembro do clube do livro. A obra é “Úrsula”, da escritora maranhense Maria Firmina dos Reis.Continue lendo

Clube do Livro Alagoinhas comemora um ano com obra de Maria Firmina dos Reis

A leitura do mês de novembro do Clube do Livro Alagoinhas será Úrsula, da escritora Maria Firmina dos Reis, obra inaugural da literatura afro-brasileira e o primeiro romance de autoria feminina do país.

Úrsula foi publicado em 1859, em São Luís, no Maranhão, e é também considerado o primeiro livro com temática abolicionista. Maria Firmina escreveu sobre escravidão a partir do ponto de vista dos escravos. Aos 22 anos de idade se tornou a primeira professora concursada do seu Estado e, após se aposentar, fundou uma escola mista gratuita. Continue lendo

É tempo de ouvir outras histórias

Um dia minha Avó me contou uma história:

Um negro, escravo fugido, se apaixonou por uma cigana e a roubou do seu povo. Eles fugiram andando pelo sertão do interior da Bahia. Tiveram uma filha (minha bisavó). 

A partir desse momento fiquei sabendo de onde eu vinha, qual era a minha ancestralidade.Continue lendo

Vícios e virtudes

Eu tinha entre doze e treze anos de idade quando fiz a minha primeira eucaristia. Lembro como se fosse ontem o dia em que eu e meus amigos de catequese fomos confessar nossos pecados ao padre pela primeira vez. Faz parte do ritual cristão antes de receber o corpo e sangue de Jesus.

Eu lembro de ficar pensando sobre o que eu ia falar. Eu ficava tentando refletir sobre as atitudes de uma menina de doze anos que poderiam ser consideradas pecado. Não sabia direito o que era pecar. Meu Deus, o que eu tinha vivido com essa idade para ter pecado?

Acabei associando o pecado à desobediência. Me senti culpada por ter desobedecido minha mãe em algum momento e então ia confessar isso, pedir perdão para Deus e pagar por meu pecado. O pagamento foi rezar um Pai-Nosso e dez Ave Marias. Depois disso, eu nunca mais me confessei.

Esse episódio da temporada cristã da minha vida reapareceu enquanto lia o “Sete confissões capitais e outros pecados”, de Adriana Sydor. O livro é um confessionário aberto. É onde a autora vai falar sobre seus pecados consciente de que os comete, como toda boa humana. Mais importante ainda sem o peso da culpa. Até um pouco feliz por se permitir vivê-los, alguns mais intensamente do que outros. Um verdadeiro “conhece-te a ti mesmo”.

Em tempos de redes sociais digitais, em que nossa vida passa por filtros, os de imagem e os de conteúdo, pensar sobre nossos pecados, nossos vícios, talvez esteja, como disse a própria Adriana, um pouco fora de moda.

Me descobri extremamente pecadora (ok, me reafirmei como pecadora), fui cúmplice da autora em vários pecados. Ao ler sobre sua relação com a inveja, me lembrei de quantas vezes ouvi e falei: tenho inveja branca de você. Além de ser um comentário extremamente racista, é totalmente sem noção dizer isso.

Se invejamos a vida de alguém é porque há algo de errado em nossa vida, ou como Sydor confessa: a inveja explica o próprio fracasso. Esse é um dos capítulos mais interessantes do livro. A autora faz uma reflexão sobre o pecado e como conviver pacificamente com ele: “Saber o que eu invejava, prêmio de consolação, foi, pelo menos, um reconhecimento do que precisava melhorar”.

Hoje se talvez fosse fazer uma confissão, o padre ia ter que reservar uma manhã inteira do domingo para mim. Mas eu não sinto vontade de me confessar na igreja com o padre. O Deus em que acredito hoje não castiga. Acredito que eu não vou precisar rezar um Pai Nosso e dez Ave Marias para pagar pelos meus pecados. Eu só preciso assumir, principalmente para mim mesma, como Adriana fez, de que “sou, como todo mundo é, uma mistura delicada entre vícios e virtudes”.

 

  • conheça a autora e acompanhe seu trabalho através do Instagram e Blog
  • o livro foi publicado pela Travessa dos Editores e o recebi através do agente literário Stéphane Chao. obrigada! 😉