Maya Angelou, e ainda resisto

No mesmo final de semana que tirei um tempinho para conhecer a vida de Malala, através do documentário “He Named me Malala”, eu fui no embalo e também vi o documentário “Maya Angelou, e ainda resisto”, sobre a artista Marguerite Ann Johnson, que foi lançado em 2016 e está disponível na Netflix.

Marguerite Ann Johnson, mais conhecida por Maya Angelou, foi o que podemos chamar de artista completa. Ao longo da vida, ela atuou, dançou, cantou e escreveu, principalmente poesias. Maya nasceu em 1928, em St Louis, nos Estados Unidos. Morou parte de sua infância no Arkansas com sua sua avó Annie, que fez questão de ensinar a Maya, e seu irmão, a ler e escrever.

No documentário, Angelou conta como foi viver naquela época no Arkansas, sobre o preconceito que sofreu, o sentimento de não pertencimento àquele lugar, e as cicatrizes que o racismo deixou na sua vida. Aos 7 anos de idade, ela foi estuprada pelo namorado da mãe. Não se calou sobre o fato, o homem foi preso, e logo depois que saiu da cadeia foi morto. Maya passou a acreditar que sua voz havia assassinado aquele homem e então ficou cinco anos sem falar.

Foi durante esse total silêncio que Maya teve um encontro com os livros e a poesia. Ela leu todos os livros da biblioteca dos negros e também todos que podia ter acesso da biblioteca dos brancos. Nessa mesma época, uma vizinha sempre a convidava para ir a sua casa comer uns biscoitos e ouvir poesia. E foi através da poesia que Maya quebrou o seu silêncio.

Se ela havia se calado porque acreditava que sua voz era mortal, para provar aquela sua vizinha o seu amor pela poesia, ela precisava dar voz à poesia. Então para provar o seu amor pelas palavras que Maya voltou a falar.

A história da vida de Maya Angelou é permeada pela educação. A leitura dos livros e da poesia preencheu o silêncio causado por uma violência sexual e a ajudou a superar o medo da sua voz. Ao mesmo tempo que a fez compreender o poder que sua voz e as palavras tinham de matar os estupradores, denunciar a violência sexual, o preconceito, a hipocrisia, as desigualdades de gênero e raça.

Além de ser uma artista, ela também foi uma ativista dos direitos civis, feminista declarada, uma mulher extremamente política e confortável com sua negritude e gênero. Ela lutou, não só com sua voz, mas com suas poesias, pelo fim das discriminações.

“Maya Angelou, e ainda resisto” é um documentário emocionante. A história de vida da Maya é narrada por ela mesma, amigos, seu único filho, Guy Johnson, artistas que foram e ainda são inspirados por ela, pesquisadores, e figuras públicas, como Bill Clinton, Oprah Winfrey, Alfre Woodard e Cicely Tyson. São múltiplas vozes para falar de uma mulher que foi diversa, autêntica, fenomenal e acolhedora.

Angelou faleceu em 2014, aos 86 anos, mas a sua voz, suas palavras e a sua poesia permanecem.

O seu primeiro livro de grande sucesso e impacto foi o  “I Know Why the Caged Bird Sings”, lançado em 1969. Infelizmente ainda não há edição brasileira, mas encontramos no Brasil um outro livro que também é considerado uma grande obra da autora que é o “Carta à minha filha : um legado inspirador para todas as mulheres que amam, sofrem e lutam pela vida”, publicado pela Editora Nova Fronteira. E em 2018, a Editora Rosa dos Tempos, do Grupo Editorial Record, lançou o “Mamãe & Eu & Mamãe”, último livro publicado por Maya, em 2013.

 

Conteúdo em vídeo (há um trecho com Maya recitando um dos seus poemas):

 

“Com amor, Simon” e a pressão para “sair do armário”

Por que só gay precisa se assumir?

Esse é um questionamento feito pelo protagonista do filme “Com amor, Simon” que estreia no Brasil no dia 5 de abril. O longa é inspirado no livro de grande sucesso da autora estadunidense Becky Albertalli, “Simon vs. a agenda Homo Sapiens” (2015).

Simon (Nick Robinson) é um adolescente de dezesseis anos que tem uma vida normal e feliz ao lado da sua família perfeita e amigos, mas ele esconde um segredo: sua homossexualidade. Com o desejo de manter sua orientação sexual longe dos corredores da escola e dos blogs, Simon vai adiando como pode a sua “saída do armário”. Na verdade, ele até acredita que não precisa fazer isso e levanta um questionamento interessante: por que só gay precisa se assumir?

Acontece que o segredo de Simon será usado contra ele. Tudo começa através de uma troca de e-mails com um rapaz de apelido Blue e que está passando por uma fase similar. Essas correspondências  foram descobertas por Martin (Logan Miller I), colega da escola, que passa a chantageá-lo. Para manter “a porta do armário fechado”, não só a sua, mas a de Blue também, Simon cede à chantagem e começa a fazer tudo que Martin quer, isso o faz perder amigos e entrar em muitas confusões.

De forma leve, e com muita sensibilidade, o filme nos faz pensar sobre essa pressão que existe na sociedade para que o gay assuma sua orientação sexual. Simon não queria se assumir porque achava que aquele não era o momento e também não queria fazer disso um grande acontecimento, queria que fosse algo normal. E aqui o longa ironiza e ilustra como seria se os heterossexuais precisassem se assumir.

Uma das cenas mais interessantes para mim é quando Simon diz para sua família, após se assumir: ainda sou eu. É um recado para tantos outros jovens e suas famílias que passam por situações semelhantes fora da tela do cinema. Simon ainda é Simon. A sua orientação sexual não o define totalmente, é apenas parte de quem ele é.

“Com amor, Simon” é um filme para todo mundo ver. Emociona por falar de aceitação, respeito ao próximo e, é claro, amor.

Conteúdo em vídeo:

Favoritos de fevereiro/2018

Vídeos com meus favoritos do mês de fevereiro nas categorias livro, filme e conteúdo.

 

LINKS CITADOS

O livro dos Abraços na Amazon

História da menina perdida na Amazon

Maratona do Oscar 1

Me chame pelo seu nome

Maratona do Oscar 2

O que te faz mais forte

Memória: o desejo de permanecer (blog)

Memória: o desejo de permanecer (vídeo)

PARTIU JERICOACOARA (CEARÁ) | vlog #1

QG Feminista: “Eu era só uma menina, fui molestada”: Por que ainda é tão difícil acreditar na vítima? 

JORNAL OPÇÃO: A autoria feminina na atual literatura brasileira 

EL PAÍS: Nossa imaginação precisa da literatura mais do que nunca 

 

E aí quais foram os seus favoritos de fevereiro? 😀

Memória: o desejo de permanecer

Nos últimos dias, alguns acontecimentos me fizeram pensar sobre esquecimento e memória afetiva. Na quarta-feira de cinzas recebi logo cedo a notícia de que alguém muito importante na minha vida e da minha família havia falecido. Na mesma hora, me veio um filme na cabeça com todos os bons momentos que essa pessoa havia proporcionado para nós. Lembrei das visitas a fazenda, da água de coco, do bolo, de sentar na varanda no final de tarde.

Minha Mãe me deu a notícia seguida de um pedido: “Ela sempre me pediu pra rezar por ela quando se fosse desse mundo. Ela não tinha filhos… Rezarei. Reze também.” Eu rezei. Ela queria ser lembrada por nós em um momento de oração, um momento íntimo com Deus, esse era o seu pedido mais importante. E apesar de ter rezado e continuar rezando, o que ficou pra mim foram nossos momentos sentadas na varanda da fazenda. Talvez essa memória afetiva também seja uma espécie de oração.

Nesse mesmo dia, resolvi continuar minha maratona do Oscar 2018 e escolhi ver a animação “Viva – A vida é uma festa”. Um filme que trata sobre o Dia dos Mortos, tradição na cultura mexicana. E ao invés de ser um dia de tristeza, é um momento de alegria, que comemora com muita cor, música e dança, a visita das almas à terra.

Miguel é um menino apaixonado por música, mas na sua casa é proibido ouvir qualquer tipo de canção devido a um trauma familiar, seu tataravô abandonou a família para correr atrás do sonho de ser um grande músico. No Dia dos Mortos, Miguel resolve enfrentar a família e ir em busca também de sua paixão. E acaba vivendo uma aventura no mundo dos mortos. É uma animação belíssima e emocionante que através dessa família nos apresenta uma cultura diferente e muito bonita.

No Dia dos Mortos, enquanto do lado dos vivos a família decora a casa e prepara um altar com fotos dos seus entes queridos, do lado dos mortos, eles esperam ansiosos para saber se foram lembrados e que assim vão poder visitar a terra. Há um desejo em comum: não ser esquecido. Eles desejam manter-se vivos na memória de quem ficou.

O título original da animação é “Coco”, o nome da bisavó de Miguel. Ela já está velhinha e sua memória está indo embora. Coco é a única que ainda lembra do seu pai, o músico que abandonou a família. E aqui o filme coloca a música como memória afetiva. Enquanto a família Rivera negava a música, fazia o mesmo com parte importante da sua história e, principalmente, com um dos seus entes queridos. Para Coco a música era o que pra mim é hoje o sentar na varanda da fazenda, a nossa maneira de manter vivo quem se foi.

O ciclo que me fez pensar sobre esquecimento e memória afetiva só teve fim na última segunda-feira quando me despedi da série Napolitana, da escritora italiana Elena Ferrante. Foi impossível não fazer ligação com tudo que estava acontecendo porque essa tetralogia fala também sobre o desejo de permanecer. O diferencial é que esse desejo não parte de quem já foi, mas de quem ficou e deseja manter vivo alguém que foi importante em sua vida.

Os quatro livros da Séria Napolitana – A amiga genialHistória do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica, História da Menina Perdida – são narrados por  Elena Greco e conta a história da amizade dela e de Raffaela Cerullo, a Lila. O primeiro livro começa quando Greco recebe uma ligação do filho de Lila informando que a mãe havia desaparecido. Como maneira de não fazer com que a amiga caísse no esquecimento e também com raiva, Lenu (apelido de Greco) começa a escrever a história delas, tudo o que ficou na memória. A sua maneira de manter Lila viva era através da escrita.

E no último livro, A história da Menina Perdida, nossa narradora deixa claro que o desejo de manter Lila viva era algo dela, algo tão forte, que ela acreditava que também era um desejo de sua amiga: Eu amava Lila. Queria que ela durasse. Mas queria que fosse eu a fazê-la durar. Achava que era minha missão. Estava convicta de que ela mesma, desde menina, me atribuíra essa tarefa.

A história das amigas não é um mar de rosas, ou talvez seja mas com muitos espinhos. Apesar de termos acesso apenas a tudo o que ficou na memória de Lenu, não duvidei da sua narrativa. E mesmo com tantos conflitos, ela sempre preferiu relevar o seu passado e todos que fizeram parte dele.

Nossa memória tem a capacidade de reter tudo que acontece a nossa volta. E também é o desejo que temos de permanecer vivo em alguém ou no mundo. É um bom lugar para voltar e ter boas sensações, ou até enfrentar medos e seguir em frente de uma nova maneira.

Como a própria Lenu disse sobre sua vida com Lila, “seria desperdício estragar uma história dando espaço excessivo aos maus sentimentos: os maus sentimentos são inevitáveis, mas o essencial é represá-los”. E ainda  complemento, viva, a vida é uma festa!

Caso prefira, você pode acessar o conteúdo no formato vídeo:

Espalhe “Memória: o desejo de permanecer” por aí! 😉

Lady Bird – A hora de voar

Com roteiro e direção de Greta Gerwig, a dramédia “Lady Bird – A hora de voar” recebeu cinco indicações ao Oscar 2018. Além de já ter sido o vencedor do Globo de Ouro em duas categorias (melhor filme cômico e melhor atriz em filme cômico). E Greta entrou para a história como a quinta mulher indicada ao prêmio de melhor direção.

Gerwig  também é roteirista de Frances Ha, um dos meus filmes favoritos da vida, que aborda o início difícil da vida adulta. Já em Lady Bird temos Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan) na transição entre a adolescência para fase jovem adulta. O que me conquista nos filmes da Greta é justamente o enfoque dado aos momentos de transição, que são quase sempre comédias dramáticas também na vida real.

Christine não gosta do seu nome, vive em Sacramento (também não gosta de Sacramento), estuda em um colégio católico, tem um relacionamento difícil com a mãe (ambas têm um gênio forte) e deseja sair voando para longe disso tudo, de preferência para uma faculdade em Nova York.

É interessante ver como ela nega tudo o que tem. Às vezes não fazemos isso? Acreditamos que o melhor não é o aqui e o agora? É algo ainda a ser conquistado e que não está próximo de onde estamos e nem no meio em que já vivemos. Lady Bird faz exatamente isso: nega tudo. Talvez por desejo de querer sempre mais (não há problema nisso se for em boa dosagem) e também por imaturidade.

O relacionamento com a mãe é outro ponto importante na dramédia. São parecidas, possuem gênios fortes, se amam, mas uma é o desafio da outra. A mãe Marion (Laurie Metcalf) tem uma postura que é definida e defendida, até pela própria Lady Bird, como um amor severo. O zelo excessivo, a crítica, a proteção são todos sinônimos de amor. Essa relação entre mãe e filha é parte importante na história e no amadurecimento de Lady Bird.

– Por que você não pode dizer que eu estou bonita?
– Pensei que você nem ligava pro que eu acho.
– Eu ainda quero que você ache que eu estou bonita.
– Desculpe, eu estava falando a verdade. Quer que eu minta?
– Não, eu só queria… Eu queria que você gostasse de mim.
– Claro que eu te amo.
– Mas você gosta de mim?
– Eu quero que você seja… a melhor versão de você que conseguir ser.
– E se essa já for a melhor versão?

Foi divertido e emocionante acompanhar a trajetória de Lady Bird. E o mais bonito é que na hora de voar, na hora que ela consegue ser quem queria ser, ela se reconhece como Christine, a menina católica de Sacramento, o que é uma parte do que ela é.

No final fica uma mensagem que toca bastante a menina que saiu da sua cidade natal aos 17 anos (eu): Voe por aí, mas não esqueça de onde você deu o primeiro impulso para voar. É sua história, sua vida, parte do que você é e sempre será, não adianta negar.

 

– Eu li seu ensaio da faculdade, você claramente ama Sacramento.

-Eu amo?

-Bem, você escreve sobre a cidade com tanto carinho e cuidado…

-Eu estava apenas descrevendo.

-Bom, pareceu amor.

-Claro, acho que presto atenção.

-Não acha que talvez sejam a mesma coisa? Amor e atenção?

Timothée Chalamet (Me chame pelo seu nome), Saorise Ronan e a diretora Greta Gerwig durante as gravações.

Universal Pictures iniciou em 8 de fevereiro uma série de pré-estreias pagas de “Lady Bird – A Hora de Voar” pelo Brasil. E a estreia está marcada para o dia 15 de fevereiro.

 

Espalhe “Lady Bird – A hora de voar” por aí! 😉

O que te faz mais forte

“O que te faz mais forte” é um filme baseado no livro homônimo de  Jeff Bauman e Bret Witter. Jeff teve suas duas pernas amputadas após ser vítima de um atentado terrorista na Maratona de Boston, em 2013, e virou símbolo de heroísmo e superação.

A produção tem o ator Jake Gyllenhaal (Animais Noturnos) em uma atuação brilhante como Jeff e Tatiana Maslany (Orphan Black) como a namorada, Erin Hurley. Erin ia correr na maratona e Jeff resolveu ir torcer por ela. Seria mais uma tentativa de reconquistá-la, já que eles estavam separados havia algum tempo. Enquanto a esperava, próximo da linha de chegada, ocorreu o atentado que deixou 264 feridos e causou a morte de três pessoas.

Bauman sobreviveu mas precisou ter suas duas pernas amputadas. E passou a ser um dos símbolos da Boston Strong, uma campanha de apoio aos sobreviventes e familiares do atentado e também um incentivo para que a população não deixasse os terroristas vencerem. A vida de Bauman mudou completamente, não só pelo fato de que agora ele precisaria mudar toda sua rotina em função da reabilitação mas, principalmente, porque ele se tornou um herói para milhares de pessoas.

Jeff recebia cartas, convites para eventos e programas (inclusive da Oprah) e tinha uma vida quase de celebridade. Me fez pensar o quanto a sociedade precisa de um herói, de um salvador, alguém que inspire e motive a uma vida melhor. Só que enquanto a mídia e sua família, principalmente a mãe Patty (Miranda Richardson), reforçavam o título de herói, Jeff não se via assim e chegou até a questionar: sou um herói por ter perdido as pernas?

O filme é um drama que tem seus momentos tensos e de dor, mas consegue ter algumas cenas de leveza pela personalidade de Jeff e sua família bem agitada. Desde o início temos a impressão de que ele é um rapaz de bem com a vida, que tenta levar quase tudo numa boa. Esses traços da sua personalidade vão aparecer durante o processo de reabilitação e traz para nós alguns cenas de descontração.

O relacionamento com a mãe alcoólatra que trata o filho como um menino mimado é bem interessante de acompanhar. Ela quer a todo custo aproveitar as oportunidades que surgem e reforça para mídia e sociedade que seu filho é um herói. Já o seu namoro com a Erin por algum momento eu pensei que fosse cair totalmente na culpa e no ressentimento, mas isso não acontece. E ela se torna alguém essencial no seu processo de amadurecimento e reabilitação.

“O que te faz mais forte” mostra que muito (ou quase tudo) da vida é uma jornada pessoal. Podemos ter o apoio da família, dos amigos, dos amores, o mundo pode acreditar que somos fortes, que somos heróis, mas isso tudo só se concretiza se nós acreditarmos que somos heróis.

O ator Jake Gyllenhaal e Jeff Bauman. | Foto: Site Festival do Rio

O filme chega às telas de cinema em 8 de fevereiro, com distribuição nacional pela Paris Filmes. Vá ao cinema se emocionar com essa bela história de superação! 😉 

  • O livro chegou ao Brasil pela editora Vestígio, do Grupo Autêntica. Confira na Amazon!

Confira minha opinião em vídeo:

Espalhe “O que te faz mais forte” por aí! 

Um poema sussurrado por alguém apaixonado

O título desse texto é uma citação do filme A forma da água, dirigido por Guillermo del Toro e que foi escrito por ele e Vanessa Taylor. O longa recebeu 13 indicações ao Oscar 2018, além de já ter recebido alguns outros prêmios importantes, como o Globo de Ouro de melhor diretor.

Escolhi esse título porque foi exatamente assim que me senti quando terminei de assistir o filme. A forma da água é uma história de amor, um conto de fadas sombrio, em que o monstro fica no final com a mocinha.  Toro, um apaixonado por monstros, fez questão de deixar claro sua referência e homenagem ao clássico O monstro da Lagoa Negra (1954).

Em A forma da Água temos Elisa, interpretada brilhantemente por Sally Hawkins, que é faxineira de uma base militar durante a década de 1960, período da Guerra Fria. Lá, Eliza se apaixona por um ser que foi encontrado e capturado pelo coronel Richard Strickland, vivido pelo ator Michael Shannon (que conseguimos odiar do início ao fim do filme). Essa criatura, vivida por Doug Jones, foi levada até o laboratório da base para ser estudada e quem sabe utilizada na guerra e na corrida espacial.

Elisa não fala, mas escuta. Sendo assim, a sua comunicação é feita através da linguagem de sinais, o que deu ao filme um silêncio encantador, além de uma calma e leveza poética. O mais interessante é que Elisa vai conseguir ensinar a linguagem de sinais a essa criatura e assim estabelecer uma comunicação mostrando também que esse ser é inteligente, pode se comunicar e entender emoções.

Através desse relacionamento entre espécies diferentes, A forma da água vai passar a mensagem de que toda forma de amor é válida, que é possível amar de diferentes maneiras. Uma das cenas mais encantadoras é quando Elisa conversa com seu melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e tenta explicar o motivo do seu amor por essa criatura. O motivo é bem simples, mas complexo em se tratando de relações e expectativas.

Quando ele olha para mim… O jeito que ele olha para mim… Ele não sabe o que falta em mim. Ou como sou incompleta. Ele só me vê pelo que sou. Como eu sou. E ele fica feliz em me ver, todas as vezes. Todos os dias.

O filme ainda tem algumas subtramas interessantes, como a do próprio coronel Strickland, um homem estressado que vive a pressão do seu trabalho, machista, e bem fácil de ser odiado por todos ao seu redor. Os amigos de Elisa também são pontos importantes na história, Giles é um artista solitário que vive triste por conta da idade e fracassos amorosos (falando bem superficialmente) e Zelda (Octavia Spencer) que é um símbolo da força da mulher no filme, ao mesmo tempo que seu personagem também nos faz pensar sobre desigualdade de gênero e preconceito racial.

E além de todo enredo, o filme também me encantou através da fotografia, cenário e trilha sonora. Permanece o tom verde na tela para reforçar o poder que água tem em toda história. E o cenário bem vintage com direito a Elisa morando na parte de cima de um cinema faz brilhar os olhos de quem gosta um pouco de nostalgia. A trilha sonora produzida por Alexandre Desplat (O Grande Hotel Budapeste) é daquelas de acalmar e vibrar o coração.

Acredito que fui enfeitiçada por esses elementos acima porque ao final do filme, eu me senti cheia de amor de um jeito estranho mas maravilhoso. Foi realmente como se tivessem sussurrado no meu ouvido um poema escrito por alguém apaixonado.

Espalhe “Um poema sussurrado por alguém apaixonado” por aí! 😉

CINELOG#2 – Your Name e Power Rangers

Mais duas super indicações de filmes para você conferir. Por aqui foi uma sessão nostalgia e outra para sair da zona de conforto.

 

Power Ranger (2017)

Novo Power Rangers. Nossa, que nostalgia boa! Eu era muito fã do seriado. Sempre assistia e queria ser uma power ranger.
Nesse filme, a gente vai ter uma nova formação dos Rangers. Eles são adolescentes e estão naquela fase problemática de descobertas: quem eu sou? o que farei da vida? E também passando por problemas em casa e na escola. Eu gostei dessa pegada drama teen. E do que eles vão ter que passar pra se tornar um Ranger de verdade. É um filme de apresentação desse novo time, então, no geral, toda ação ficou pro final e nem foi muito explorada.
Vale pela nostalgia. Vibrei demais com os momentos que lembram o seriado (principalmente quando tocou a famosa música). Deu vontade de maratonar o seriado! Vale a pena ver pra matar a saudade.
Espero muito que tenha uma boa continuação porque merece.

Your Name (2016)

Faz tempo que não vejo uma animação e aí resolvi ver o anime japonês Kimi no Na wa (em inglês ficou Your Name, e quando for pra Globo vai ser algo tipo Vidas trocadas).
A premissa da animação é bem batida, dois adolescentes trocam de vidas através de sonhos, após um cometa cair no Japão. Temos a Mitsuha, uma garota do interior do Japão, que leva uma vida bem tradicional, tipo de cidade pequena mesmo. E Taki, um estudante do ensino médio, que vive em Tóquio e tem uma vida toda agitada de cidade grande. Então imaginem aí que loucura vai ser essa troca de vidas.
A animação é lindíssima. E é muito bacana conhecer um pouco da cultura do Japão, tradicional e moderno. Mitsuha e Taki vão acabar criando um sistema/ algumas regras para poderem levar da melhor maneira possível essa troca. E, claro, para que um possa ajudar o outro. É bem legal acompanhar isso porque eles são muito diferentes e quando eles trocam de mundo, digamos assim, é bem visível isso para amigos e alguns familiares (tipo, há algo de estranho nesse garoto/garota), mas ninguém sabe explicar.
É um anime de ficção científica, outro recurso utilizado é a volta no tempo. Então tem umas idas e vindas interessantes.

Só que através disso tudo, o Makoto Shinkai (um cara super top aí no Japão e fera nas animações pelo que pude ver quando fui pesquisar. Já tenho uma lista de outras animações/filmes dele pra ver), vai nos falar e nos fazer pensar sobre relacionamentos afetivos de vários tipos. Se colocar no lugar do outro. Fazer a diferença na vida de alguém.

Os nossos personagens que são super cativantes – impossível não se encantar e torcer por eles – ficam dizendo que estão a procurando algo. E nós às vezes passamos boa parte da vida procurando algo, nem sabemos o que é, mas estamos procurando e com isso esquecemos do agora, né? E o lance é que tudo passa, tudo muda de uma hora pra outra pro bem ou pro mal.

Anime lindíssimo. Vale super a pena ver. E chegou ao catálogo da Netflix!

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Projetos para 2018

Por aqui tenho algumas novidades para quem me acompanha e fiz um vídeo contando um pouco de tudo que você vai encontrar no blog/canal ao longo de 2018.

 

LITERATURA

Leia mulheres | Biblioteca feminista
Letras da Bahia
E para esse início de ano, estou com dois projetos de leitura compartilhada, o Lendo Frida de Boa e o Uns e outros.
Novidade para conteúdo
Diário de leitura: para comentar as 2 ou 3 últimas leituras
Na cabeceira: para comentar sobre as leituras em andamento e mostrar os livros novos

FILMES

1 doc por semana
1 filme por semana
#52filmespormulheres
Novidade para conteúdo
CINELOG: para comentar os 2 ou 3 filmes vistos

SÉRIES

Não há um projeto específico.
Novidade para conteúdo
 Seriando: para comentar as 2 ou 3 últimas séries vistas

PARA LER E VER NO FINAL DE SEMANA

Dica rápida de leitura e filme/série/documentário

PROJETO #100em1

A proposta é visitar 100 lugares novos em 1 ano. Ou revisitar algum lugar que fui há muitos anos. Eu vi no blog da Bruna Morgan, mas a ideia veio do blog O Pequeno Lírio, da Claudia.
Para esse projeto devo fazer mais posts no blog porque é mais fácil tirar fotos em lugares públicos do que filmar, pelo menos pra mim. Mas sempre que tiver a oportunidade de gravar um vlog, com certeza farei.

CRÔNICAS

Uma das minhas metas pessoais do ano é voltar a escrever crônicas, algo que amo muito.

NEWS DA JENI

A proposta da news é a mesma do blog, compartilhar dicas de filmes, séries, livros e bater um papo sobre a vida.

NOVA IDENTIDADE VISUAL DO GERALDAS

Desde o final do ano passado que o blog está passando por uma reforma. Comecei mudando o layout. E foi bem engraçado porque eu estava com a ideia fixa de escolher um layout minimalista, oldschool e tal, achei o que estava na minha cabeça mas meu coração bateu mais forte por um de grid, que a Ana, do Ponto para ler, chamou carinhosamente de bagunça organizada e eu super concordei porque realmente é, e também porque eu sou meio que isso também. hahaha
O Luke, do Um Café com Luke, disse que ficou parecendo uma revista interativa. Achei uma ótima definição. Ainda estou reformando porque pretendo mudar a marca e toda identidade visual das redes sociais. E já quero agradecer a galera que atura as minhas loucuras: Anne, Marcio Melo (do Pocilga), Ana, Luke e o Thiago Rasta.

Espalhe “Projetos para 2018” por aí! 😉

CINELOG #1 – 3 filmes bons de 2017

 

Como nossos pais

Lançado em agosto de 2017 com roteiro e direção de Laís Bodanzky (Bicho de sete cabeças), Como nossos pais tem no elenco Maria Ribeiro, Paulinho Vilhena e Clarisse Abujamra.
A personagem principal é a Rosa, vivida por Maria Ribeiro. Através dessa personagem, o filme faz a gente pensar os papéis que a sociedade capitalista e patriarcal estabeleceu para a mulher. A Rosa sonha em ser dramaturga mas escreve textos publicitários. Cuida de duas meninas (uma pré-adolescente), lida com os segredos e problemas da mãe e as fantasias do pai. Ela tem marido e irmão. Mas Rosa não tem ajuda de nenhum dos dois. A gente percebe que não é porque ela deseja ser a supermulher, mas porque ela precisa dar conta de tudo. Do contrário, a vida de todos ao seu redor vai parar.
A gente percebe uma ansiedade e frustração. Rosa quer mais do que estão oferecendo. Ela não quer largar tudo e sair correndo. Até tem vontade, mas não faz. No meio do caos, da opressão, ela quer diálogo, quer espaço. Ela quer alguém parceiro para cuidar da casa e da família, quer viver seus sonhos, quer sexo, quer ser feliz. E ela não está pedindo nada demais.

O Castelo de vidro

Filme baseado no livro de mesmo nome da escritora Jeannette Walls que traz memórias da infância e vida da autora junto com sua família considerada disfuncional.
No filme nós temos essa família formada por um pai sonhador e alcoólatra, uma mãe artista e 4 crianças. O pai tem um lema que é “vivendo que se aprende”. Ele não acredita em educação convencional, em empregos formais e tenta levar uma vida longe do consumismo, e dos padrões comuns que vivemos na sociedade. A princípio isso pode até ser legal, mas na verdade, esse pai é uma figura autoritária em boa parte do tempo e que quer impor aos filhos o seu modo de viver. É um personagem extremamente irritante, me senti sufocada várias vezes vendo o comportamento dele com a mulher e os filhos. E ver crianças sendo privadas de boa educação, da convivência com amigos é de cortar o coração. A personagem que mais se destaca é justamente a Jeannette e seu relacionamento com o pai, ela sempre vai questioná-lo e enfrentá-lo de algum modo. Além de ser a pessoa que vai chegar pros irmãos e falar: ó, nossos pais sãos loucos e a gente precisa ficar sempre juntos para conseguir algo na vida.
É um filme um pouco longo, acho que deveria ser mais curto. E passei o tempo inteiro revoltada com o pai, mas o final é emocionante. Castelo de vidro é um drama familiar que acima de tudo vai falar sobre o perdão, sobre enfrentar os fantasmas do passado para seguir em frente.

Get Out

É um filmes de suspense/terror que vai falar sobre racismo. É a forma mais sensacional que eu vi nos últimos tempos para tratar do tema. Filme super inteligente e que prende do início ao fim. Chris é um jovem negro que vai viajar com sua namorada branca Rose para conhecer a família dela. Aparentemente a família não sabe que ele é negro. Chegando lá, a família parece lidar com o fato de Chris ser negro de uma maneira ok, mas a gente percebe que há sim estranhamento e Chris também. É uma família que tem empregados negros, que diz que votaria novamente no Obama, mas dá pra perceber um certo fetiche em relação ao negro, curiosidade, e, óbvio, preconceito.
Não posso falar muito pra não dar spoiler. Mas Get Out é um filme pra rir, tomar uns sustos, e ficar com aquela ansiedade boa que os filmes de suspense dão, sabe? E claro nos faz pensar sobre a questão do racismo.

Espalhe “CINELOG #1 – 3 filmes bons de 2017 por aí!” 😉