Quando comecei o projeto de newsletter o plano era me desafiar a escrever criativamente toda semana. Mas quem é inscrito na news deve ter percebido que o “toda semana” não valeu para as últimas semanas. E o que aconteceu? Aconteceu que eu percebi que estava envolvida em atividades demais. Não só relacionadas à produção de conteúdo, mas cursos e projetos de leitura. Sem contar nas atividades da pesquisa e do mestrado (que não parou por causa da pandemia). Fazer essa reflexão e aceitar que estava envolvida em atividades demais é ir totalmente contra a cultura vigente na sociedade em que vivemos. A cultura atual nos coloca no modo padrão que é o automático. A gente só diz sim e segue o bonde. Se não fizermos isso entramos em outro bonde, o dos perdedores, aqueles que estão perdendo alguma coisa – ótimas oportunidades de negócios, ótimas oportunidades de contatos, as super novidades do momento. 

Um dia, numa tentativa criativa de fazer um perfil sobre mim, escrevi: a vida é uma janela aberta onde eu gosto de ver o tempo passar sem pressa. Eu leio essa frase e penso naquelas cidades do interior, em que a gente passa quando viaja de carro, e sempre há alguém na janela observando a vida passar. Numa dessas viagens, encontrei um cachorro fazendo isso. E outro dia assistindo um filme sobre a vida e obra da artista Maudie Lewis, havia uma cena em que ela dizia: “Eu amo uma janela. Um pássaro passando. Uma abelha. Sempre é diferente. A plenitude da vida já enquadrada. Bem ali.”

Hoje as janelas são telas coloridas e interativas. E sei que hoje muitas das nossas janelas em casa dão para prédios gigantes ou para a vida do vizinho. Quase nada supera uma janela à moda antiga. Exceto se começarmos a abrir outras janelas no nosso dia. Em vez de o celular em uma rede social com discussões políticas acirradas, um livro. Em vez de o noticiário que desespera, uma música de Caetano. Em vez de checar o e-mail a cada instante, tomar sol e se exercitar.

Eu costumo ler bastante. Leio vários livros ao mesmo tempo. Recente postei numa rede social os livros que estava lendo e os que queria ler, no total creio que chegava a umas oito leituras. Recebi um comentário curioso: multitarefa de leitura. Eu respondi que lia um pouco de cada, de vez em quando, sem pressa. Mas depois fiquei pensando um pouco mais sobre esse comentário. E cheguei a conclusão de que a pessoa tinha razão. Eu era multitarefa de leitura. Confesso que ri sozinha aqui pensando nisso. Ah, e essa ficha só caiu quando eu estava chupando uma tangerina após o almoço. Já faz um tempo que eu tento almoçar sem o celular do lado para checar. Na verdade, estou tentando cultivar esse hábito em todas as refeições e confesso que esses momentos estão me fazendo ter pensamentos interessantes. 

A questão da multitarefa de leitura tem a ver com a questão inicial dessa crônica – envolvida com atividades demais. Eu sempre brinco que ler vários livros ao mesmo tempo é praticar a piriguetagem literária. Só que esse comentário me fez olhar para aquelas leituras e questionar: por que eu estava lendo aqueles livros? Muitas daquelas leituras estavam relacionadas com projetos que eu estava envolvida e que não eram prioridades (foi difícil admitir isso). Duas lições: pense bem antes de postar sua lista de livros para ler na internet. E tenha cuidado com a piriguetagem literária. 

Esse episódio me fez atentar ao fato de que nos últimos tempos eu estava começando diversos livros e abandonando a leitura porque eles não eram o que eu realmente queria ler naquele momento. Estava pegando um bonde que passava. E esquecendo que para ser uma leitora, não há uma questão de quantidade ou velocidade, mas de qualidade. E qualidade pode mudar de significado de pessoa para pessoa. Foi com esse fato que eu comecei a repensar as minhas atividades. Sai cortando vários livros da lista e com isso saindo de projetos e cursos. Foi difícil? Foi! Mas nada demais. 

Como diz Carlo Petrini, fundador do Slow Food, “a arte de viver consiste em aprender a dar o devido tempo às coisas”. Esse ritmo acelerado só nos traz a sensação de que o tempo passa rápido demais e a gente nunca está fazendo o que deveríamos fazer. Assim como a gente apenas realiza coisas, mas não experiencia. É diferente. Realizar é apenas fazer o que tem que ser feito para atingir uma meta e riscar um item na lista de afazeres. Experienciar é realizar com consciência do fazer. É mais intenso e vivido. É a tal da arte do viver.

Tente achar uma janela hoje e sente para ver a vida passar sem pressa.

Crônica enviada em Notas da vida #04 – acesse a newsletter completa aqui

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