Sobre a escrita

Desde o ano passado que tenho feito as notas da vida e de estudos no formato digital. No início de 2019, surgiu a vontade de voltar a escrever com papel e caneta. Como estava confortável com o formato digital prático e acessível, continuei.

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Mas, no final de maio, decidi que ia deixar a praticidade de lado e atender ao desejo de conexão ao papel e à caneta.

Aquela possibilidade de escrever e não deletar os erros, como se eles jamais tivessem existido. Mas deixá-los no papel como parte do processo.

Aquela possibilidade de deixar o pensamento livre para escrever sem a opção de editar. Seguindo o fluxo da mente que às vezes disputa agilidade com as mãos.

A escrita como uma conversa com o pensar e o sentir.

A escrita como exercício da introspecção.

Olhar para o papel e para dentro. e então escrever o que surgir.

Não dá para fazer tudo isso no digital? Dá sim.

Mas eu gosto da imagem da mulher que senta, abre o caderno e começa a escrever. Livre dos bipes e das telas. Contemplando o momento. Ouvindo o som da caneta ao rabiscar o caderno e o do carro de propaganda do mercado que passa anunciando as promoções e da motosserra cortando mais algum verde por perto.

A mulher que para e escuta os pensamentos e todos esses sons. E depois volta a escrever.

Mas independente do formato, escrever liberta, transcende.

Papel ou computador, a única certeza é: não posso parar de escrever.

Lembrei de Celi, personagem de A Cor Púrpura, livro escrito por Alice Walker. Celi escrevia cartas para Deus. Os seus escritos eram seus companheiros numa vida solitária marcada por opressões. Um dia em conversa com sua irmã, Celi disse que enquanto ela pudesse escrever D-E-U-S, ela tinha alguma coisa.

Celi me traz na memória a escritora Carolina Maria de Jesus e seus diários.

Carolina dizia que ao invés de xingar por não ter o que comer, escrevia em seu diário.

escrita, companhia, transcendência.

Nola Darling, a artista visual da série Ela quer tudo.

Assisto e penso: deve ser maravilhosa a sensação de pintar uma tela em branco. Fazer uma arte. Extravasar sentimentos. Queria ter esse dom. Não tenho. Não pinto telas, escrevo em folhas em branco. Técnicas diferentes com a mesma finalidade. Talvez.

Rosa Montero e a escrita para cultivar uma boa convivência com a louca da casa, a imaginação.

Colocar os nossos anjos e demônios para fora da mente e assinar um tratado de paz.

Escrever até não saber do que se escreve.

Escrever até saber do que se sente, do que rememora, do que prende.

Materializar. Expurgar. Libertar.  

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