Reze pelas mulheres roubadas – Jennifer Clement

Olá, amigos. Esta semana em particular, na qual o Subindo no Telhado aborda aspectos culturais da América Latina, senti uma certa dificuldade em escolher o livro a ser “resenhado”, e não pelo motivo óbvio, não gostar ou ter lido pouco sobre, mas exatamente o contrário, ter lido muita coisa boa e amar a literatura latino-americana. Sendo assim, optei por Reze pelas mulheres roubadas, escrito pela jornalista mexicana Jennifer Clement e lançado pela editora Rocco este ano.

A obra aborda, basicamente, a dura realidade enfrentada pelas mulheres mexicanas desde a infância até a idade adulta, em algumas localidades. A partir de diversas entrevistas com mulheres das regiões mais violentas do México a autora constrói a trama, que mexe com a gente do início ao fim. As primeiras páginas do livro são tão chocantes que parecem absurdas. O que dizer da primeira frase do livro: “Agora vamos deixar você feia, minha mãe disse”.

No livro, acompanhamos a história de Ladydi, uma jovem mexicana, que vive em uma região violenta e esquecida pelas autoridades. É ela quem nos apresenta os personagens e relata suas experiências. Na localidade em que reside, a violência é corrente e o tráfico de mulheres ocorre impunemente. Os problemas que Ladydi precisa superar se iniciam antes mesmo do seu nascimento. Preocupada, sua mãe lamenta o fato de colocar no mundo uma menina e durante alguns anos afirma ter dado a luz à um menino. Já na infância, precisa tornar-se feia para sobreviver, pois os traficantes vigiam as jovens desde cedo.

Em um trecho do livro sua mãe cogita quebrar seus dentes para que esta não se torne atraente, mas opta por passar lápis preto nos dentes da filha para que esta pareça ter dentes podres. O exemplo vivenciado por todas as meninas é retratado na figura da jovem Paula, raptada e desaparecida, até conseguir escapar e retornar à sua casa, com uma tatuagem com os dizeres garota do canibal e toda marcada por queimaduras de cigarro.

A região em que Ladydi vive é descrita pela autora como um lugar esquecido pelas autoridades e pelos homens. A escola do local funcionou por curtos períodos, já que os professores não se arriscavam a frequentar a região. Isto óbvio, impediu a formação das jovens. Sinal para celular só existe em um ponto e todos devem se dirigir até este local para conseguir uma ligação. O único homem do local é um jovem chamado Mike que está envolvido com o crime.

Em um momento vemos mãe e filha no caminho de casa quando se deparam com um cadáver e elas mesmas acabam ocultando o corpo. Em frente as casas existem buracos na terra para as jovens se esconderem quando alguma movimentação estranha era percebida na região. Tal descrição serviria para diversos países pobres do mundo, mas se referem ao México e estes problemas sociais, e a violência em especial, estão presentes na obra de outros autores mexicanos.

Fazendo uma busca rápida no google é possível encontrar diversas notícias relacionadas à violência contra a mulher no México. Uma em particular, apresenta a seguinte manchete: “Cinco mulheres morrem por dia no México vítimas da violência”. A notícia se refere à problemas como os buracos nas ruas, o excesso de lixo e a iluminação ruim que somam-se aos roubos, mortes, desaparecimentos e sequestros. E a mulher é a vítima.

A análise presente na reportagem casa perfeitamente com o livro de Clement. Na obra, a exploração das mulheres é duramente descrita e a possibilidade de mudança e melhora nos parece impossível. Ladydi tenta mudar o rumo de sua vida ao abandonar o lugar em que nasceu e tentar a sorte numa realidade bem diferente. Para acompanhar seu destino, só vocês lendo.

Até a próxima!

>> Veja mais publicações da coluna de Alan, Hell’s Kitchen.

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Comentários 1

  • [SNT #4] Los vecinos - Subindo no Telhado

    2 de julho de 2015

    Responder

    […] fez um top 10 com filmes latinos para ver na Netflix. Já Alan Nardi trará uma resenha do livro Reze pelas mulheres roubadas (editora Rocco, 2015), da mexicana Jennifer Clement. E para finalizar a edição #4, comentarei, em […]

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