Projeto Uns e Outros #1

Toda leitura que fazemos é realizada a partir da nossa visão de mundo. Apesar de dizermos constantemente que os livros nos apresentam novas formas de ser e viver, nem sempre conseguimos nos desvencilhar das nossas bagagens culturais ao realizar uma leitura. E o autor ao escrever, por mais que crie um universo distópico ou de fantasia, vai colocar ali o que sente, vê e crê no mundo.

É também por conta dessa leitura particular, que muitas vezes dizemos que determinado livro “não nos tocou”, que aquele personagem “não nos cativou”. E muitas outras vezes, reimaginamos finais e queremos contar a história do nosso jeito. Meio egoísta, talvez. Mas bem aceitável. Porque essas diversas leituras são o diferencial, são a parte criativa do mundo.

Quando vi o projeto Uns e outros – Contos Espelhados, da TAG, achei a proposta bem interessante. Temos a mania de dizer que o clássico é intocável, é quase sagrado. E assim colocar escritores contemporâneos para reescrever contos clássicos é ousado e motivador.

Seguindo a ordem do sorteio feito com os blogs Eu li ou vou lerPonto para ler e Leitora Sempre, comecei a leitura pelo francês Guy Maupassant e a brasileira Maria Valéria Rezende.

Guy escreveu o “O colar”, um conto sobre uma pobre jovem mulher que está infeliz com a vida que tem ao lado do marido porque vive a sonhar com luxos e festas de gente rica. Um dia seu marido recebe um super convite para participar de uma festa de ricos. A mulher fica contente, mas ao mesmo tempo triste. Afinal o que ela irá vestir, em uma festa desse tipo? Ela consegue ganhar do marido um belo vestido, mas fica faltando alguma joia, a qual ele não pode comprar. Então, ela resolve pedir emprestado para uma amiga. No dia da festa, a jovem mulher brilha e está feliz como ninguém, mas o tal colar desaparece. Não posso dizer mais nada, sem passar spoiler. Mas é um conto que vai desenvolver de uma forma que considerei surreal, mas ao mesmo tempo divertida. E vai nos fazer pensar sobre aparências, o quanto valorizamos e o quanto elas podem enganar.

A escritora Maria Valéria deu ao conto espelhado o título “Um simples engano” e segue a mesma ideia do conto original, porém com uma releitura atual e bem brasileira. Matilde é a pobre jovem mulher que não aceita sua condição financeira e vive a sonhar com luxo. Tudo muda quando seu marido recebe um convite para uma festa privada da empresa em que trabalha. No caso de “Um simples engano”, o colar vira um carro. O casal pega emprestado o carro super chique de uma madame que Matilde trabalhava. Sim, o carro é roubado. Mas também não entrarei em detalhes para preservar a parte divertida e tensa do conto. Maria Valéria preservou a ideia principal de superestimar as aparências, ao mesmo tempo que reforça a ideia de que quando tentamos ser o que não somos, a vida pode nos presentear com boas ironias.

O segundo par de conto que li foi “O fim de algo”, do norte-americano Ernest Hemingway, e “O início de alguma coisa (imitando Hemingway)”, do brasileiro Luiz Antonio de Assis. No “O fim de algo” temos o casal Nick e Marjorie navegando por um lago e relembrando dos tempos bons da cidade em que viviam. Ao chegar no destino final, acontece o fim de algo. Esse algo é o fim do relacionamento do casal. Acontece de um modo inesperado para o leitor e para Marjorie. Já, Luiz Antonio segue a mesma ideia, porém pela perspectiva de Marjorie e com uma linguagem mais simples, sem muito detalhe de água e pescaria como o original (o que me deixa entediada). O texto é mais objetivo e a mudança de perspectiva é interessante. O brasileiro preferiu ver o copo cheio, ao invés de vazio. Enquanto Hemingway falou do fim de algo, Luiz focou no início de alguma coisa para nos lembrar que os finais são também recomeços.

O terceiro par de conto que li foi “Os desastres de Sofia”, da Clarice Lispector, e “Simplício”, da Eliane Brum. Aqui também temos uma mudança de perspectiva. Enquanto o conto de Clarice é narrado por uma mulher, o de Eliane é narrado por um homem. E ambos vão falar de uma paixão entre uma aluna e um professor.

Em “Os desastres de Sofia”, apesar da menina brincar e tentar atrair o professor, ela ainda não se acha mulher o suficiente para atrair um homem. Foi bem incômodo ver uma menina de nove anos apaixonada por um professor. Quando vamos para “Simplício” e temos a mudança de perspectiva, encontramos um homem apaixonado por uma criança e tentando entender e fugir dessa paixão, que como ele mesmo define é pecado. Os dois contos são bem escritos, mas não consegui achá-los interessantes.

Dos 3 pares que li, o que mais gostei foi o “O colar” e “Simples engano” por terem sido leituras que me divertiram. Achei as duas histórias surreais (apesar de possíveis) que foi impossível não rir ao finalizá-las.

Espalhe “Projeto Uns e Outros #1” por aí! 😉

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Comentários 2

  • Ana Paula

    2 de Fevereiro de 2018

    Responder

    Eu sigo ansiosa para ler o par de contos da Maria Valéria, mas isso só vai acontecer em março, de acordo com o meu cronograma Hahahaha
    Eu já li O início de algo e ele também não fez o meu coração bater mais forte, mas eu achei interessante a abordagem do Assis Brasil.
    Semana que vem também vou ler Eveline! Vamos trocar figurinhas \o/
    Beiijos

    • Jeniffer Geraldine

      2 de Fevereiro de 2018

      Responder

      Achei o do Maria divertido. Vamos trocar sim.
      Bjão

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