O mundo de Aisha – Ugo Bertotti

O Iêmen é um país localizado ao sul da Península Arábica com uma população de aproximadamente 24 milhões de habitantes, com quase sua totalidade composta por muçulmanos. Muito rico culturalmente, sofre com a extrema pobreza, a corrupção e a guerra civil. Em meio a tais condições, a opressão e a violência contra as mulheres se destacam. Basta fazermos um busca rápida na internet para identificarmos uma variedade enorme de casos que deveriam trazer a mulher como vítima, mas que ao contrário, a apresentam como ré. Os casamentos precoces, o afastamento dos estudos, as prisões sem motivo e uso “recomendado” do niqab reafirmam esta realidade. É exatamente sobre a opressão feminina na região que a HQ O mundo de Aisha, lançada pela Editora Nemo em 2015, vai tratar.

Fruto da parceria entre o ilustrador Ugo Bertotti e a fotógrafa Agnes Montanari, O mundo de Aisha traz três histórias que retratam a dificuldade de ser mulher no Iêmen, protagonizadas por mulheres de diferentes gerações, mas que compreendem sua condição perante os homens da região. As três histórias possuem abordagens distintas, o que torna a leitura ainda mais cativante. Antes de ler, imaginava um quadrinho que funcionaria como um panfleto contra a opressão feminina, mas a obra é muito mais do que isso, nos oferecendo uma série de ingredientes para discussões mais aprofundadas sobre o tema.

A primeira história é sobre Sabiha. Se casou aos onze anos de idade com um homem doze anos mais velho. Foi literalmente vendida pelo pai, que com parte do dinheiro consertou o motor de uma picape para poder trabalhar e cuidar melhor da família. Nunca frequentou a escola. Aos dezoito, já era mãe de três filhos. Parte de sua infância e sua adolescência foram dedicadas a cuidar da casa e dos filhos. Era obrigada a usar o niqab, espécie de véu que cobre todo o corpo deixando apenas os olhos a mostra. Diante das obrigações, sofre nas mãos do marido.

A segunda história traz Hamedda como personagem principal. Se casou aos treze anos com um homem de quarenta. Teve dez filhos. Diferentemente de Sabiha, trabalhava alimentando os soldados e trazia para a casa um importante suporte financeiro. Por trabalhar, ela e os filhos eram ultrajados na rua, tanto pelos homens quanto pelas mulheres. Também teve de abandonar os estudos, mas teve sua vida transformada a partir de sua atividade.

A última história nos apresenta Houssen, Ghada, Ouda, Fatin e Aisha, tendo esta última, como destaque. Vemos nesta história Aisha crescendo e deixando claro para a mãe e o irmão que não se casaria jovem e que estudaria até se formar em uma universidade. Mesmo contando com o apoio da mãe, o irmão faz pressão para que ela se case e abandone seus sonhos.

Se as vidas destas mulheres fossem somente reproduzidas poderíamos pensar que estava ali a visão de um europeu sobre um árabe, que no choque de culturas julgou a cultura do outro pelo seu próprio olhar. No entanto, mais do que simplesmente retratadas em forma de quadrinho, as histórias ganham vida e complexidade quando as personagens ganham voz e retratam sua dura realidade.

O que mais gostei deste quadrinho foi a miríade de questões que surgiam a cada página lida. O que dizer da quantidade de armas soviéticas presentes no Iêmen ou de uma mulher ficar presa por cinco meses por ter esquecido o dinheiro do táxi em casa ou de uma mulher que aceita o uso do niqab por acreditar que a verdadeira prisão é a ditadura da beleza imposta aos ocidentais ou de uma mulher que leva um tiro de AK-47 do marido? Enfim, leitura altamente recomendada. A arte? Ainda precisa de motivos pra ler? Não tem nada de mais. Traços simples em preto e branco, mas que combinam muito com as histórias.

Grande abraço e até a próxima.

 

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