A noite da espera – Milton Hatoum

Vamos ler brasileiros contemporâneos? Confira a dica de autor e livro!


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Milton Hatoum nasceu em Manaus em 1952. É escritor, tradutor e professor. Já ganhou três vezes o prêmio Jabuti, e uma delas foi com o livro Dois Irmãos, obra que já foi adaptada para televisão pela Rede Globo em 2017, e também para o teatro e quadrinhos. Foi com Dois Irmãos que eu conheci a obra do Hatoum e me apaixonei.

Em 2017, pela Companhia das Letras, Milton lançou o primeiro volume da trilogia O lugar mais sombrio, o A noite da Espera, um romance de formação ambientado na época da ditadura. Em A noite da Espera nós temos nosso personagem e narrador Martin que vai intercalando os seus relatos entre o ano de 1968, em Brasília, e 1978, em Paris.

Martin é paulista, mas foi morar em Brasília com seu pai após a separação de Rodolfo e Lina. Rodolfo era engenheiro civil e Lina, professora de francês. Essa separação vai interferir muito na vida de Martin. Ele tinha uma relação boa com sua mãe e de repente se viu longe dela e morando com um pai amargurado que não aceitava a separação. Lina havia se apaixonado por um pintor e resolveu viver essa paixão, Martin foi morar com o pai por questões financeiras. Essa vida em Brasília vai ser bem difícil, primeiro por morar em um lugar muito diferente do que ele estava acostumado, segundo porque a vida com seu pai ia ser um verdadeiro inferno.

A parte boa vai ser encontrar um grupo de estudantes envolvidos com cultura, arte, teatro e literatura. Eles vão movimentar e muito a vida do Martin, principalmente, porque nesse ano de 1968 começava no Brasil, os chamados Anos de Chumbo, um período de extrema repressão militar, com muitos protestos e prisões de estudantes. Então já dá pra imaginar um pouco do que o Martin se meteu, porém ele estava ali no meio daqueles estudantes, no meio da ditadura, mas ele não tinha uma postura política e nem de ativista. Ele só estava ali. Meio apático e indiferente. Foi essa a sensação que eu tive.

Existia um conflito, uma turbulência lá fora, no Brasil, em Brasília, mas Martin tinha o seu próprio conflito, a sua turbulência, que era a ausência da mãe e o relacionamento inexistente e ruim com o pai, mas principalmente a ausência da mãe era constante na vida de Martin. Ele estava ali no meio de tudo, mas o seu pensamento estava sempre longe, na lembrança da sua mãe, tentando entender a sua ausência, a sua distância. E isso o tornou um pouco apático, mas não menos complexo e interessante de acompanhar. Eu ficava a todo momento: mas como ele foi parar aí? Toma uma atitude rapaz! Se posiciona! O que vai acontecer agora com esse menino?

E a história deixa inúmeras pontas soltas que só reafirmou pra mim que a vida que o Martin levava era cheia de buracos que ele não sabia como preencher. E eu tenho minhas dúvidas se ele conseguiu um dia saber como preenche-los. E aí só aguardando o próximos volumes pra saber.

É uma obra que foi escrita em 2008, mas nós podemos perceber, infelizmente, algumas pequenas semelhanças com o estado atual do Brasil. O que é muito chocante e triste. Só tem a mostrar o quanto nosso país está regredindo em diversas questões.

Fica dica, então, conheça a obra do Milton Hatoum. E se você gosta de romance de formação, drama familiar, e do tema ditadura, vale ler A noite da espera.

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