minha estante era patriarcal demais

Quando fiz o planejamento literário do mês de novembro priorizei alguns livros recebidos em parceria com editoras. Separei cinco livros. Todos eles são lançamentos de 2017. Percebi um padrão, dos cinco apenas UM era de autoria feminina. Na verdade, esse padrão eu já havia percebido em 2015 quando conheci o projeto Leia Mulheres. Minha estante era patriarcal demais.

Uma pesquisa da UnB, divulgada no site Metrópoles, coloca em dados o motivo da minha estante ser patriarcal demais: o perfil do escritor brasileiro não muda desde 1965. E não muda porque as grandes editoras brasileiras publicam livros de escritores com o mesmo perfil há 49 anos. A pesquisa, coordenada pela professora do Departamento de Teoria Literária Regina Dalcastagnè, analisou 692 romances de 383 escritores e mostra que mais de 70% deles foram escritos por homens, 90% são brancos e pelo menos a metade veio do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Por vivermos em uma sociedade que é extremamente normativa, o nosso pensamento acaba se tornando também normativo. E a regra é branca, hétero e masculina. Há anos essa regra dita valores excludentes que colocam à margem, por exemplo, mulheres, negros e homossexuais. Mas colocar à margem não anula a existência. Essas pessoas existem, persistem, produzem e estão aos poucos ressignificando a literatura.

Virginia Woolf diz que a mulher para escrever precisa ter um teto todo seu. O teto é físico e também subjetivo. A mulher precisa de dinheiro, independência, e também ter valor social, um lugar na sociedade, que lhe é de direito, que não a coloque como minoria mas parte essencial de um todo. Esse valor vai além de desempenhar o papel triplo de esposa, mãe e dona de casa. E a questão do valor social vale também para todos que são considerados minorias e não estão dentro da regra branca, hétero e masculina.

O sistema patriarcal capitalista não enxerga valor na literatura de autoria feminina (e em muitos outros setores) e isso tira de circulação várias autoras. Como disse a escritora Jarid Arraes, em matéria no site da Revista TRIP, “a dificuldade está na lógica do mercado” – que podemos entender ao conhecer a pesquisa da UNB.

Mas, então, o que podemos fazer enquanto leitores e enquanto possíveis agentes de mudança?

Ir até a margem!

A professora e pesquisadora Jailma dos Santos Pedreira Moreira, da UNEB, fala sempre que devemos “desconfiar das ausências, do naturalizado”, e isso quer dizer questionar tudo o que nos é apresentado como único. Não é apenas X e Y, é o alfabeto inteiro.

Por isso a importância de projetos como  Leia Mulheres, Leia Mulheres Negras, Mulherio das Letras, Mulheres que escrevem, Escritoras negras da Bahia. Essas iniciativas questionam a lógica do mercado e a regra do sistema simplesmente por existirem e me fazem repensar a minha estante, a minha vida como leitora e, mais ainda, o meu lugar como mulher.

Eu vou até a margem e preencho as ausências. Que tal fazer isso também?

12 Comentários

  1. O curioso é que esse padrão do mercado editorial obviamente é alimentado pelo próprio público. DUVIDO que você nunca tenha conversado com alguém que diz que não leu determinado livro porque não é do gênero que ela lê. Eu entendo que a gente tem que ler o que gosta, mas não entendo o comodismo, porque simplesmente excluir algo sem nem conhecer ou porque experimentou uma vez há não sei quanto tempo nunca mais se interessou por conhecer algo diferente e novo.
    As editoras tanto sabem que esse grupo é maioria que quando algum lançamento vira best-seller TODAS as editoras passam um período de tempo publicando uma enxurrada de livros que vendem a mesma história. Vide 50 tons de cinza que aprofundou o mercado hot no Brasil, que era quase inexistente até então.
    Somos nós que alimentamos esse comportamento nessas seis décadas e se nós não nos juntarmos para dar um basta nisso o nosso mercado não vai mudar tão cedo. Fomos a um evento de literatura policial aqui em Brasília e os autores da chamada do evento eram todos homens e estrangeiros. Quando as apresentadoras mostraram uma lista com outros escritores do gênero apareceu uma única mulher, se não me engano, e NENHUM dos nomes era brasileiro. Ou seja, como se não bastasse a barreira do gênero ainda tem o problema da nacionalidade… Se uma editora nacional, que tem o papel de levar ao leitor escritores dos mais diversos gêneros não tem a preocupação de publicar autores nacionais COM TODA A CERTEZA ela tem um público que não dá a mínima para isso.
    Por isso assino embaixo e vou a margem com você. Porque o mercado só vai mudar, quando a demanda vier dos próprios leitores e quanto mais gente agregarmos a essa causa mais rápido isso vai acontecer.
    Eita, fiz textão Hahahaha

    • Jeniffer Geraldine Reply

      Isso mesmo, Ana! Tem também a questão de valorizar apenas o que vem de fora. É bem complicado. São muitas barreiras que precisamos quebrar. E vamos que vamos!

  2. Adorei a reflexão e a pesquisa. A minha estante do n anda patriarcal demais por causa das escritoras estrangeiras. Mas seguem esse perfil aí q vc colocou.

    • Jeniffer Geraldine Reply

      É outro desafio: que as editoras brasileiras publiquem mais autoras brasileiras.
      obrigada pela visita, Lua.
      bjão

    • Jeniffer Geraldine Reply

      o bom é notamos! então vamos que vamos!
      bjão

  3. Sheila Mares Guia Reply

    Fico pensando no quanto nós, mulheres com um universo interior infinito, perdemos ao deixar que só os pensamentos padronizados ganhem liberdade para crescer. Achamos que somos livres mas nossa liberdade é restrita a quadrados adequados e socialmente correto.
    Os autores que lemos e as autoras que não lemos são só sinalizações de quem estamos sendo. O que assusta é a constatação de limites internos que não nos damos conta.
    E pensar na infinita grandiosidade que nos habita, esquecida:e inexplorada!

    • Jeniffer Geraldine Reply

      Verdade, Sheila. Mas não podemos nos culpar totalmente. Já que vivemos numa sociedade que nos molda há anos. É preciso a todo momento reconstruir a nossa imagem como mulher. E esse é um processo, muitas vezes, interno.
      Bjão

  4. Eu faço Letras – LP e na minha penúltima aula de Teoria III, nossa professora nos mostrou esses dados e ficamos todas alarmadas. A turma se divide em mulheres e em alunos e alunas lgb, então ficamos bem chocados que a nossa área não arca com tamanha representatividade. Uma das soluções propostas pela nossa professora foi aproveitar o PIBIC (Iniciação Cientifíca) e abordar autoras mulheres, autoras negras, autoras lésbicas, autoras latinas e etc, assim além de ampliar uma área de estudo, daríamos voz a quem por tanto tempo foi silenciado!!

    Eu pretendo trabalhar este assunto futuramente!

    • Jeniffer Geraldine Reply

      Excelente iniciativa da professora, Ket!
      Vamos plantar as sementinhas em todo lugar.
      bjão

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