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Maus – Art Spiegelman

A palavra alemã Maus significa rato. Quando reli o quadrinho, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2005, para escrever esta resenha não consegui tirar da cabeça uma propaganda nazista, divulgada na Alemanha durante a ascensão do Nazismo, que mostra um celeiro infestado de ratos e como solução para o controle da praga um recipiente com veneno; em seguida surgem na cena diversos judeus, aparentemente ricos, e a pergunta: como exterminamos uma praga? A resposta: um tubo de gás, o mesmo que mataria milhões de judeus durante a 2ª Guerra Mundial. A obra, premiada com um Pulitzer, narra a vida de Vladek Spiegelman, pai do autor Art Spiegelman, durante os piores momentos da política antissemita na Alemanha e nos países ocupados durante a Guerra. No quadrinho, os personagens são retratados como animais: os americanos são cachorros, os poloneses porcos, os nazistas gatos e os judeus ratos.

A história nos vai sendo apresentada a partir do momento em que Art vai conversar com seu pai, um judeu polonês, com o intuito de escrever um livro de memórias retratando o sofrimento imposto aos judeus durante o domínio nazista. A Polônia foi um dos países que mais sofreu com a política imperialista alemã durante a Guerra e tomamos conhecimento de vários episódios vividos por Vladek. Vemos, por exemplo, que o pai de Vladek impunha uma dieta aos filhos para que eles ficassem com a aparência de doentes e acabassem dispensados do exército. Acompanhamos seu relacionamento com Anja, uma judia de família rica, seu casamento e o nascimento de seu primeiro filho, Richieu. Com a ajuda do sogro, Vladek passa a ser dono de uma fábrica de tecidos, mas devido a problemas “emocionais” da esposa acaba se mudando para a Tchecoslováquia, onde ela será tratada. Quando retornam à Polônia, o ambiente já não é o mesmo e a perseguição aos judeus se inicia.

maus foto alan nardi

Neste momento, o ódio aos judeus, já propagandeado, se estabelece. Os judeus são saqueados e expulsos de suas casas, passam a viver nos guetos e enquanto a Guerra prossegue são levados aos campos de concentração e extermínio. O trabalho forçado, a fome, a humilhação, a violência e a doença são brilhantemente retratadas ao longo do quadrinho. A fuga e as tentativas humilhantes de se esconderem, como ratos, também são mencionadas.

Apesar de todas as cenas referentes aos campos de extermínio serem chocantes e cruéis, duas cenas em especial me tocaram pela simplicidade e por mostrar ao leitor o que estava por vir. A primeira retrata a perseguição aos comunistas na Polônia. Anja traduz documentos de um amigo de Varsóvia para o alemão, contendo propaganda comunista, e passa adiante. A polícia vai investiga-la, mas antes, ela deixa os documentos com a vizinha que acaba sendo presa em seu lugar. O outro momento é quando Vladek e Anja chegam à Tchecoslováquia e se deparam pela primeira vez com uma bandeira nazista. Não me lembro exatamente onde e quando li algo sobre a tensão pré-existente na Europa com a tomada do poder pelos nazistas, questionando porque os judeus não foram capazes de perceber que seriam caçados como animais e exterminados. Devemos ter em mente, que muitos acreditavam que o Nazismo seria algo passageiro e que a vida voltaria ao normal. Quando se deram conta, era tarde demais.

Maus é uma obra de arte e com toda a certeza um dos meus quadrinhos preferidos. Me deixou triste quando li pela primeira vez e me deixou triste novamente agora. É tocante, cruel e real. Existe uma série de documentários intitulada Rompendo o silêncio, produzida por Steven Spielberg, no qual alguns sobreviventes do holocausto são entrevistados e relatam como sobreviveram. Me lembro de uma senhora contando que um pedaço de pão era servido como refeição nos alojamentos do campo de extermínio e que muitas vezes os presos não contavam os mortos só para ficarem com o pão deles. Maus é real a este ponto. Não leu ainda? Tá perdendo tempo.

Até a próxima.

Imagem: Everona

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Publicado em Literatura

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