[Livro & Filme] Trash

Trash, de Andy Mulligan, foi publicado no Brasil pela Cosac Naify com tradução de Antônio Xerxenesky, em 2013. O livro, dividido em cinco partes, conta a aventura vivida por três meninos moradores de Behala, a cidade do lixão, Raphael, Gardo e Rato. Os meninos também trabalham no lixão e precisam encontrar algo de útil para vender e sustentar a família. Através do relato de Raphael, o primeiro narrador, nós temos a ideia de como é a rotina dos moradores de Behala.

Andy Mulligan não nos diz onde fica exatamente a cidade do lixão, mas podemos localizá-lo em muitos países da América Latina onde muitas pessoas vivem em locais parecidos. Durante a leitura, foi impossível não lembrar das imagens do documentário Estamira, produzido por Marcos Prado, em 2005.

Quer saber como é lá? Bom, você consegue sentir o cheiro de Behala muito antes de ver o lugar. Deve ocupar o espaço de duzentos campos de futebol, ou talvez mil quadras de basquete, não sei: parece se estender infinitamente. Não sei quanto do lixo é barro, mas, num dia ruim, parece que é a maioria, e passar a vida remexendo o lixo, respirando aquele fedor, dormindo ao lado dele bom… Talvez um dia você encontre “alguma coisa legal”. Ah, sim.

Um dia  eu encontrei. (pags 10 e 11)

Em um dia normal de trabalho, Raphael encontrou uma bolsa com dinheiro, alguns documentos  e uma chave. Ele e seu melhor amigo, Gardo, ficaram felizes com o achado, mas o que eles não esperavam é que a polícia fosse até o lixão procurando especificamente por uma bolsa com as mesmas características da que Raphael tinha encontrado. E para acabar de completar, sua tia fala para polícia que o sobrinho encontrou algo. Pronto, Raphael estava marcado pelos policiais.

E enganasse quem achar que eles entregariam tudo numa boa para polícia. Ao invés de fazer o que parecia mais sensato, eles resolveram gastar o dinheiro e esconder a bolsa na “casa” de Rato, outro menino do lixão que vive solitário, longe dos outros. E a aventura começa. O fato é que Raphael, Gardo e Rato acharam que estavam livres da polícia e queriam saber de quem era realmente a bolsa encontrada e porquê outras pessoas tinham tanto interesse no objeto.

Os meninos foram corajosos, devo admitir. Mas em vários momentos fiquei aflita porque sabia que eles tinham se metido em uma bela confusão e ia ser difícil sair dessa. Como em toda grande aventura, há os obstáculos. Os meninos, principalmente Raphael, vão passar momentos tensos nas mãos da polícia. Mas, no meio do caminho, eles encontram algumas pessoas para ajudá-los, o padre Julliard, responsável pela Escola Missionária Pascoal Aguila no lixão, e Olivia Weston, considerada a governanta da Escola. Julliard e Olivia são outros dois narradores que aparecem na história.

Os documentos que estavam na bolsa davam para Raphael, Gardo e Rato algumas pistas sobre o mistério. Uma delas era um nome: José Angelico. Depois de uma pesquisa no computador da Escola, os meninos descobrem que José Angelico está morto e isso aumenta mais ainda a curiosidade: que interesse teria a polícia em encontrar a bolsa de um homem morto?

Me surpreendi com o desenrolar do mistério – que envolve fugas de polícia, mistério de um código de livro, dia dos mortos e uma fortuna – e torci para  que os meninos saíssem vivos da encrenca que arrumaram, apesar de achar algumas situações surreais. Em vários momentos, a ousadia e coragem de Raphael, Gardo e Rato me fizeram lembrar dos Capitães da Areia, do Jorge Amado.

Andy Mulligan, através da aventura e amizade de três garotos do lixão, faz uma crítica social. Trash trata de desigualdade social, corrupção, e abuso de poder, três temas super atuais no mundo inteiro, inclusive no Brasil.

[Filme] Trash – A esperança vem do lixo

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Em 2014, Trash ganhou nas telonas a “cara” do Brasil. A produção, dirigida pelo Stephen Daldry, foi filmada no Rio de Janeiro e tem no elenco três grandes nomes do cinema brasileiro, Wagner Moura, Selton Mello e Nelson Xavier.

A história é sobre três garotos que vivem no lixão, Raphael (Rickson Tevez), Gardo (Eduardo Luis) e Rato (Gabriel Weinstein). Um dia Raphael encontra uma carteira com dinheiro, documentos e uma chave. O menino resolve ficar com o dinheiro e dividi-lo com seu melhor amigo Gardo. O que os meninos não esperavam é que a polícia fosse até o lixão em busca da carteira. Nesse momento, eles conhecem o investigador Frederico (Selton Mello) que vai ser a pedra no sapato dos garotos.

A tensão começa quando eles resolvem não entregar a carteira para polícia e escondê-la com o amigo Rato, outro morador do lixão. A intenção deles é descobrir quem é José Angelico (Wagner Moura), dono dos documentos encontrados na carteira, e o real interesse da polícia no objeto.

Com isso os três garotos começam uma aventura para desvendar esses mistérios. Junto com eles vamos montando o quebra-cabeça e encontrando situações que envolvem corrupção, lavagem de dinheiro, políticos e policiais desonestos. E assim, os meninos são movidos, principalmente, pelo desejo de fazer justiça.

O roteiro tem alguns furos e muitas vezes tive a impressão de que o personagem do Selton Melo não deveria estar em cena. E há algumas situações, consideradas por mim, surreais. Mas a adaptação fez uma boa ligação com os problemas do nosso país. Na época em que o filme foi filmado, o Brasil estava vivendo os protestos de junho de 2013. E isso aumentou ainda mais o caráter de crítica social e política de Trash.

O filme acabou alfinetando grandes empresas e instituições brasileiras envolvidas em escândalos recentes no país. E Raphael, Gardo e Rato se tornaram inspirações para uma revolução no Brasil.

 

>> Confira o trailer

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