As leituras de março

Primeiro vídeo da retrospectiva de março/2018. Hoje compartilho os livros lidos no mês.

Não consegui ler tudo que planejei para o projeto Leia Mulheres no mês de março, mas faz parte. Mudei algumas leituras, li mais um romance do Jorge Amado e um livro do filósofo italiano Giorgio Agamben.

 

 

Links citados:

Os homens explicam tudo para mim

A louca da casa

Cartas secretas jamais enviadas & Últimas mensagens recebidas

Projeto #AmandoJorge

 

A louca da casa (Rosa Montero)

Eu finalmente li o “A louca da casa”, da escritora e jornalista espanhola Rosa Montero. E hoje quero bater um papo com vocês sobre a minha experiência de leitura, o que ficou desse livro em mim, o que ele me fez pensar sobre a vida.

Ou seja, não é uma resenha, é um papo sobre “A louca da casa”.

Eu não fazia ideia do que era esse livro, mas sempre tive vontade de ler por causa do título “A louca da casa” e dessa capa que eu acho vibrante, impossível que não chame atenção em qualquer prateleira.

Lendo descobri que é um grande ensaio sobre a literatura, a narrativa, o ser romancista/escritor, mas também é sobre a louca da casa, que é como a Rosa chama a imaginação, o ponto de partida da maioria das narrativas e o que move muitos escritores. Além também de ser um livro sobre loucura, paixões amorosas e, é claro, a vida da Rosa Montero. Ele é autobiográfico, se nós leitores acreditarmos que a Rosa é uma narradora confiável.

O livro é dividido em 19 partes, sem títulos. Há muitas histórias sobre a vida de outros escritores, inclusive muitos clássicos, para exemplificar os temas abordados. E também episódios curiosos e engraçados da vida da autora, já que como ela mesma diz suas lembranças são organizadas em torno de namorados e livros.

Vou compartilhar com vocês alguns pontos que me chamaram atenção ao longo da leitura:

1) Todo ser humano é um narrador

Por acreditar que literatura é vida, Rosa também diz que todo ser humano é um potencial narrador e romancista.  “Nós nos mentimos, nos imaginamos, nos enganamos” durante toda a vida, e somos autores de um romance único que vamos escrevendo ao passar dos dias e que assumimos o papel de protagonista.  Concordo demais, e se levarmos essa possibilidade de cada ser humano ser um romancista, um grande narrador da própria vida para o nosso momento atual, em que vivemos conectados, podemos dizer que criamos narrativas diárias nas redes sociais, sobre quem somos e como vivemos.

2) A imaginação é a louca da casa

Meu Deus, sim! A casa é nosso corpo, nossa existência. E a louca desse lugar é a imaginação. Eu tenho uma imaginação muito fértil. Eu olho para pessoas, coisas, momentos, até fotografias, e invento narrativas. Às vezes é bem complicado conviver com tantas ideias na cabeça, que estou pensando seriamente em passar a escrevê-las.

Rosa também fala de como vamos limitando nossa imaginação à medida que vamos crescendo porque ficamos naquela ideia de que imaginar, dar asas a imaginação, é coisa de criança. Então de certa forma, ser romancista é deixar um pouco viva essa criança que fomos um dia e conviver bem com a louca da casa.

3) Compromisso da escrita

Há um compromisso ao escrever. Rosa diz que o escritor deve “permanecer sempre alerta contra o senso comum, contra o preconceito próprio, contra todas ideias herdadas e não questionadas que se infiltram insidiosamente em nossa cabeça”.

Olha que fantástico isso: “permanecer sempre alerta…contra todas ideias herdadas e não questionadas que se infiltram insidiosamente em nossa cabeça.”

Acredito que é um compromisso do escritor, mas é um compromisso de qualquer pessoa que deseja olhar para o seu tempo, seu lugar, de forma crítica. Trazendo para o hoje e também para a realidade de quem não é escritor, vivemos um momento de fake news. Por que as pessoas recebem uma notícia e não a questionam, não buscam outras fontes, não checam? Preguiça de pensar e de desejo de permanecer na zona de conforto com suas próprias ideologias e verdades.

Muitas das pequenas ou grandes revoluções começaram por conta de um questionamento. Escrever é um ato político, e ler também é.  Fiquei pensando bastante nessas questões quando Rosa falou sobre o compromisso da escrita.

4) O peso semântico do feminismo

Na parte 13 do livro, Rosa vai admitir que é anti-sexista por conta do peso semântico que o feminismo tem, mas respeita os movimentos feministas e também se considera uma feminista e usa essas palavras por reconhecer a importância histórica e atual dos movimentos.

Essa parte do livro é muito boa porque também ela vai comentar sobre duas perguntas que não aguenta mais responder: existe uma literatura de mulheres? Prefere ser jornalista ou escritora?

O peso semântico do feminismo é forte mesmo. Muitas pessoas só de ouvirem a palavra já abominam os movimentos e não gostam do feminismo porque atribuem um significado com base no senso comum: é a oposição ao machismo, é a mulher dominando o mundo. Sendo que não é. É uma luta por equidade. É uma luta como diz a Simone de Beauvoir para que a mulher seja não seja o outro, o que vive a margem, subalternizado, o segundo sexo. Além de ser uma luta que questiona a cultura machista que impõe também estereótipos sobre o ser homem.

5) As mulheres dos escritores

A parte 16 também me chamou atenção. A Rosa traz algumas mulheres que abdicaram da vida própria para viver em função dos seus maridos escritores e que ainda eram vistas como megeras e loucas. Ela chama inclusive as esposas dos escritores de uma “antiga instituição literária”, que felizmente está em processo de extinção. Ela fala muito de Fanny, esposa de Robert Louis Stevenson (autor de O médico e o monstro) e Sonia Tolstoi, esposa de Leon Tolstoi.

É só um exemplo de que durante muito tempo a mulher foi sempre vista como parte da vida de um homem e não alguém com vida própria. O homem tinha direito pela vida da mulher.

Aqui também acho interessante ler “O teto todo seu,” da Virginia Woolf, e “Os homens explicam tudo para mim”, da Rebecca Solnit.  

Conteúdo em vídeo:

 

Links citados:

Amazon:  A louca da casaOs homens explicam tudo para mim | Um teto todo seu

Os homens explicam tudo para mim

Documentário The mask you live in

Exposição O Sertão de João Machado

 

Espalhe “A louca da casa (Rosa Montero)” por aí! 😉

Cartas secretas jamais enviadas & Últimas mensagens recebidas

Durante parte da adolescência, eu tinha o hábito de trocar cartas com amigas. E tinha também o hábito de escrever em diário, o que muitas vezes, lembro bem, resultava em cartas que escrevia para mim ou para outras pessoas. As que eram destinadas para mim se perderam e muitas das que eram destinadas para outras pessoas jamais foram enviadas e também se perderam.

Emily Trunko, uma jovem de Ohio, também tinha a mania de escrever cartas para amigos e outras pessoas que fizeram parte da vida dela em algum momento, e resolveu começar um Tumblr para publicar essas cartas, o “Dear My Blank”, em 2015. Esse espaço na internet acabou se tornando uma comunidade de apoio quando várias pessoas, assim como eu e Emily, haviam escritos cartas que nunca foram enviadas.

O projeto ganhou destaque na mídia, se transformou em livro em 2016, e chegou ao Brasil pela Editora Seguinte, do Grupo Companhia das Letras.

O Tumblr que deu origem ao livro ainda está na ativa e na época que o livro foi lançado já tinha mais de 35 mil seguidores. Emily mantém o anonimato do destinatário e do remetente e qualquer pessoa pode submeter uma carta através da plataforma.

As pessoas encontraram ali apoio, um espaço para desabafar, ser ouvido, se comunicar, colocar para fora sentimentos, frustrações, se despedir de alguém, se declarar para alguém. O “Cartas secretas jamais enviadas” é dividido em Querido eu, Querido mundo, Amor, Amigos, Família, Coração partido, Traição e Perda.

Seguindo o mesmo modelo do “Cartas secretas jamais enviadas” e do projeto online “Dear My Blank”, a Emily criou o “The Last Message Received” que também deu origem a um livro o “Últimas mensagens recebidas”, dessa vez as pessoas foram estimuladas por Emily a enviar as últimas mensagens que receberam de alguém que era importante na vida delas.

Apesar de ser um livro bonito, com ilustrações da Ale Kalko (o Cartas secretas também é ilustrado pela Ale), há mensagens bem pesadas e chocantes. O que impressiona é que com poucas palavras uma pessoa pode acabar com o sonho de alguém, destruir ainda mais a autoestima de uma ex-namorada, reforçar esteriótipos, violentar.

Nessa compilação também há algumas mensagens de suicidas, tanto que nas páginas finais dos dois livros encontramos contato de instituições como o Centro de Valorização da vida e da ABRATA.

As últimas mensagens recebidas vêm acompanhadas também de um rodapé para contextualiza-las, e a gente fica meio chocado com o que lê.

Resolvi compartilhar esses dois livros no blog porque são projetos que fazem refletir sobre a importância da comunicação, do diálogo, de conversar e ouvir o outro, de perceber o outro. De tirar um tempo na correria do dia a dia para dar atenção aos nossos amigos, amores, família.

Conteúdo em vídeo (tem imagens dos livros por dentro):

Extraordinárias – Mulheres que revolucionaram o Brasil

“Extraordinárias — Mulheres que revolucionaram o Brasil”, de Aryane Cararo e Duda Porto, traz vários perfis de mulheres brasileiras e abrasileiradas que fizeram história no nosso país.

Assim que recebi o livro em parceria com a Companhia das Letras, me perguntei: será que tem alguma baiana? E tem sim!

No vídeo comento sobre 3 baianas extraordinárias. Confira!

 



Série Napolitana – 5 motivos para ler

Nunca fui de ler séries de livros, mas desde 2016 fui arrebatada pela série Napolitana, da escritora Elena Ferrante. Em 2018, me despedi da tetralogia, mas sigo levantando a bandeira “Ferrante Fever” (febre Ferrante) por onde vou.

Elena Ferrante se mantém no anonimato mesmo sendo considerada um fenômeno da literatura contemporânea. O seu desejo de se manter ausente dos holofotes já causou incômodo em muita gente e resultou até em uma investigação sobre a identidade da autora, foi um verdadeiro CSI literário em 2016.

A série Napolitana é considerada pela própria autora como um grande romance, mas que foi dividido em quatro partes. A tetralogia é também um grande romance de formação e posso dizer, para simplificar a sinopse, que trata da história da amizade entre duas mulheres, Elena Greco (Lenu), e Raffaela Cerullo (Lila). A narradora é a Lenu, que se tornará uma escritora de sucesso, e o seu desejo de escrever essa história de amizade partiu de dois fatos: a vontade de Lila de desaparecer do mundo sem deixar vestígios; e a vontade de Lenu de manter a sua amiga viva.

Costumo dizer que a amizade delas é um mar de rosas cheio de espinhos. E em alguns momentos não sabemos se são amigas ou inimigas. Acredito que uma motivava o melhor e o pior da outra. Os quatro livros foram publicados no Brasil pelo selo Biblioteca Azul, da editora Globo Livros, com tradução de Maurício Santana Dias. São eles:

  1. A amiga genial (2011): 1950, Nápoles (Itália). Parte da infância e adolescência;
  2. História do novo sobrenome (2012): Juventude e início da vida adulta. Lila se casa e Lenu continua os estudos;
  3. História de quem foge e de quem fica (2013): Década de 1970. Um dos temas principais é maternidade. O livro é mais político e social. Além de fazer pensar também o que é ser mulher em um mundo machista;
  4. História da menina perdida (2014): Lenu já é uma escritora de sucesso e Lila conquistou pessoas e status onde vive. Elas estão distantes uma da outra mas acabam se reaproximando.

Listar cinco motivos para ler a Série Napolitana é apontar o que mais me atraiu nos livros e também as relações que fiz entre a ficção e a vida.
  1. Escrita sincera e honesta de Elena Ferrante

A autora não emociona com palavras bonitas e citações sublinháveis mas com situações tão reais que podemos encontrar na nossa família, bairro e cidade.

     2. Questões feministas

Através da vida de Lila e Lenu, podemos refletir sobre a condição feminina, sororidade, maternidade, violência doméstica, machismo, sexualidade feminina, casamento, família X vida profissional. E também sobre tudo o que as personagens fizeram para tentar sobreviver ao mundo machista.

    3. Nápoles

A cidade Nápoles é um pedaço da Itália do pós-guerra na série e se torna uma outra personagem importante. Assim nos faz pensar sobre bairrismo, referências e influências sociais, violência, máfia e política.

   4. Importância do acesso à educação

O acesso ao livro, leitura, educação fez diferença na vida de Lenu e Lila. A oportunidade de estudar desde a escola até a universidade afeta não só o futuro profissional, mas a autoestima de um ser humano.

   5. Personagens complexas

Além de Lenu e Lila, a série traz vários personagens e núcleos familiares complexos, passionais, ambíguos. Ou seja, humanos e reais demais.

 

Se preferir, você pode conferir o conteúdo no formato vídeo! 

Espero ter te convencido a ler! 😀

 

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Hibisco Roxo – As verdades e histórias únicas

Em janeiro, li o primeiro livro publicado pela nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, “Hibisco Roxo”. Considerado um romance de formação, a obra foi publicada em 2003 e recebeu o Prêmio Commonwealth Writers como “Melhor Primeiro Livro” em 2005.

Além de um romance de formação, considero “Hibisco Roxo” como um romance de despertar. A protagonista e narradora da história é a adolescente nigeriana Kambili e é o despertar, o amadurecimento, dessa garota que vamos acompanhar. Não é uma história bonita, é bem triste e cruel, apesar da sutileza que Chimamanda escolheu para retratar alguns acontecimentos.

A família de Kambili é vítima da colonização europeia e toda a sua imposição de costumes e crenças que fizeram milhares de pessoas renegarem as suas origens e tradições. Além disso, a menina, seu irmão Jaja, sua mãe Beatrice são vítimas também do fanatismo religioso e da violência doméstica, através da figura de Eugene. Um homem que tinha o título de “Omelora – aquele que faz pela comunidade”, era exemplo para todos de sucesso, bom pai e marido, mas em casa era um ser violento e opressor.

Durante anos Kambili e Jaja viveram debaixo do teto desse homem, com suas regras e normas, quase todas amparadas na fé. A mãe era totalmente submissa e silenciosa, um exemplo claro do que a cultura machista faz com uma mulher.

O despertar de Kambili começa quando ela e seu irmão vão passar alguns dias na casa da Tia Ifeoma, irmã do pai Eugene, viúva, mãe de três filhos e professora universitária. Na casa de Ifeoma, eles encontram um mundo totalmente diferente do deles. Mais humilde, simples, econômico e feliz. Jaja tem olhos e atitudes curiosas diante do novo. E Kambili tem olhos comparativos, até de reprovação, e muitas vezes incrédulos, mas mantém sempre a discrição.

A atitude da adolescente me fez pensar no quanto a mulher pode ter mais dificuldade em quebrar tradições e verdades ditas como únicas. Como são/podem ser submissas ao machismo, autoritarismo e fanatismo. E tudo isso é fruto do que foi dito para mulher durante séculos, das subjetividades fabricadas sobre o que é o ser mulher. E Kambili ainda tinha em casa um exemplo de mulher silenciosa e submissa, e seu comportamento era sempre moldado pela opressão e religiosidade excessiva do pai.

O contato com a casa da Tia e com seus filhos, em especial a prima Amaka, transformou os adolescentes. Eles tiveram a oportunidade de conhecer outros modos de viver e de crer, quando saíram da fortaleza criada pelo pai. Eles conheciam apenas um modo de vida, uma verdade única, aquela ditada por Eugene. É fácil compreendê-los, eram vítimas dessa opressão violenta. Eram vítimas da história única.

Em conferência no TED (Technology, Entertainment, Design), Chimamanda nos alerta sobre o perigo da história única, aquela contada sobre qualquer povo ou coisa no mundo e reforçada por todos os cantos como verdade incontestável.

Kambili e Jaja são vítimas da história única, mas antes deles, Eugene. Quando a Nigéria sofreu a colonização europeia foi pregado qual modo de viver (e de crer) era o correto e o melhor. Eugene negava sua língua materna, as crenças e tradições do seu povo, e até seu pai. Isso não justifica as atitudes dele, mas nos faz querer criticar e rebater qualquer possibilidade de poder que dite verdades e histórias únicas.

Você pode conferir o conteúdo no formato vídeo! 😀

  • Hibisco Roxo foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Adquira na Amazon e colabore com o blog.

 

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Livros para março, mês da mulher

Vai ter conteúdo todo dia na semana da mulher (05 a 10/03). E hoje começo compartilhando o que vou ler em março. Foquei bastante no projeto Leia Mulheres.

Confira as minhas pretensões de leitura e aproveite para separar algum livro de autoria feminina para ler também! 😉

 

LINKS CITADOS

Quarenta Dias – Maria Valéria Rezende (no blog)

Quarenta Dias – Maria Valéria Rezende (vídeo)

Clube do Livro Alagoinhas

Projeto literário #AmandoJorge

 

Boas leituras! 😉 

Citação: Conceição Evaristo em Olhos D`Água

Citação: Conceição Evaristo em Olhos D`Água

Formato Citação

Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.

Conceição Evaristo

Os livros lidos em fevereiro/2018

Fevereiro foi o mês que tomei a decisão de pausar o Projeto Uns e Outros. Não estava curtindo a leitura e preferi utilizar meu tempo para outro livro que sabia que ia gostar mais. E deu super certo!

E ainda foi o mês que me despedi da série Napolitana, da italiana Elena Ferrante. A história de Lenu e Lila entrou para minha lista de “histórias preferidas da vida”.

LINKS CITADOS

História da menina perdida

O livro dos abraços

Os homens explicam tudo para mim

Frida. A Biografia

Dia bonito pra chover

Todo Dia

E você o que leu de bom em fevereiro? 😀