ler e escrever, atos políticos

No quintal de casa em busca de luz e ar fresco para fugir de uma tosse irritativa – o médico que disse, e realmente é bem irritante. É primavera. Acho que escolhi o lugar certo. O short no varal dá um tom poético à cena, como definiu um amigo.

Luz, flores, a roupa que seca no varal, o carro do ovo que passa, os vizinhos que conversam desafiando as paredes entre nós. Leio Grada Kilomba e através dela leio bell hooks, Stuart Hall, Toni Morrison. Estou bem acompanhada.

No início do livro, a autora faz um trabalho primoroso de desconstrução da língua portuguesa. Língua que tem “dimensão política de criar, fixar e perpetuar relações de poder e de violência”. Lembro de Barthes, e o livro “Aula”, indicado pelo prof WDrummond nas aulas maravilhosas de Teorias e Críticas – e Desconstruções de tudo e de todos. A língua é fascista por criar e fixar as relações de poder, e por nos impor um modo de falar e escrever.

Retomo Grada quando ela comenta sobre a escrita como ato político. A escrita para nos tornarmos narradoras e escritoras de outras realidades, “autora e autoridade na minha própria história”. Escrever para ser sujeito, para ser oposição aos lugares predeterminados e ao mesmo tempo reinventar a si e ao mundo. E reafirmo, cá com meus botões, ler é também um ato político. Ler essas outras realidades nos mostra que há muito ainda para ser visto, ouvido e reconstruído.

Sigo no quintal lendo Grada e todas que vêm junto com ela.