Jardim de inverno – Kristin Hannah

Seguiu em frente. Ultimamente, esse parecia ser o melhor modo de lidar com as coisas.

“Seguir em frente” é o tipo de conselho que a gente escuta sempre que passa por um período turbulento na vida, seja ele de perda material ou emocional. É um conselho clichê, porém, às vezes, necessário. A gente segue, mas nem sempre esquece. O fantasma da lembrança sabe como nos assustar e nos aprisionar ao longo da vida. Só que tudo é uma questão de permissividade.

Jardim de Inverno, da escritora Kristin Hannah (Editora Novo Conceito), vai nos mostrar de que forma o fantasma da lembrança pode assombrar uma família durante anos, fazendo com que as escolhas do passado interfiram nos laços afetivos do presente.

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Meredith, a dona de casa e mãe exemplar que cuida dos negócios da família, e Nina, a fotojornalista famosa e aventureira, são duas irmãs totalmente diferentes, mas que possuem em comum a indiferença da mãe, Anya. Após a morte do pai, Evan, as irmãs se reencontram e Nina, no leito de morte do pai, promete para ele conhecer a verdadeira história da mãe. Meredith, cansada das várias tentativas frustradas de se aproximar de Anya, não quer ajudar Nina a cumprir a promessa, mas como a fotógrafa sempre foi movida por desafios e aventuras, se mantém persistente e faz de tudo para que a mãe se abra e conte quem realmente ela é e foi.

A verdade era que nunca conseguira compreender como uma mulher podia ser capaz de adorar apaixonadamente o marido enquanto ao mesmo tempo desprezava as filhas. Não, isso não era verdade. A mãe não desprezava Meredith e Nina. Ela apenas não se importava com elas.

Meredith nunca compreendera por que uma mulher que via o mundo em preto e branco dava tanta importância para flores, mas Nina sabia do poder de imagens em preto e branco. Às vezes, uma coisa ficava mais verdadeira quando se removiam as cores.

Uma das lembranças mais marcantes da infância das irmãs é a mãe contando para elas um conto de fadas de uma menina a espera de seu príncipe. Quando o pai pediu que Nina insistisse em conhecer melhor a mãe, deu como dica o conto de fadas. Nina teria de fazer com que a mãe contasse a história até o final – algo que até o momento Anya nunca tinha feito.

Agora, precisava repensar esse hábito. Durante anos, olhava para a mãe sem realmente vê-la, assim como ela e Meredith haviam ouvido o conto de fadas sem realmente escutar. Elas haviam assumido que era apenas ficção; elas ouviam apenas para escutar a voz da mãe. Mas agora era tudo diferente. Para cumprir a promessa que fizera para o pai, Nina tinha que fazer mais que isso: precisava ver de verdade e ouvir de verdade. Cada palavra.

A partir deste momento, a escritora apresenta ao leitor duas narrativas com tempos e narradores diferentes. Uma no presente em que Nina e Meredith vivem as suas vidas tentando encaixar a mãe fria e indiferente na rotina e ainda tentando fazê-la terminar de contar a história. E uma narrativa no passado, frio e gelado, na cidade Leningrado (Rússia), na época da Segunda Guerra, em que Anya vai nos contar sobre a história de amor que mudou seu modo de viver e ver o mundo.

Kristin Hannah soube criar e entrelaçar essas duas narrativas de maneira atrativa e coerente. O leitor vai aos poucos, junto com Nina e Meredith, descobrir, entender e acolher Anya. Jardim de Inverno traz uma mensagem interessante sobre o “seguir em frente”. A partir do momento que você se propõe a seguir em frente, é necessário fazer isso de alma e coração. É um livro sobre sobrevivência, escolhas e laços afetivos. É inverno, mas também verão.

Alegria e tristeza eram parte do pacote; o truque, talvez, fosse permitir-se sentir tudo, mas agarrar-se à alegria um pouquinho mais, porque nunca se sabe quando um coração forte pode desistir.

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