Janelas

O Google Fotos criou uma pasta chamada “horizontes” e agrupou várias fotografias de pôr do sol, mar e céu. Achei poético. Tenho uma linha do tempo com vários registros de horizontes. Muitos são da janela do apartamento. Parece tudo igual mas não é. Todo dia era um espetáculo diferente.

Realmente gosto de fotografar horizontes e olhar pela janela – pausa, silêncio, vento e barulho trazendo notícias lá de fora. E como disse a artista Maudie Lewis, “A plenitude da vida já enquadrada. Bem ali.”

Durante um ano de pandemia, algo que senti falta foi de ter uma janela. Na falta de uma, comecei a sentar no fundo do quintal para ficar um pouco mais perto dessa plenitude da vida, olhando o céu azul, observando as lagartixas, percebendo as mudanças das plantas. 

Quando não estava no quintal, chegava no portão da frente de casa para ver um pouco da vida do lado de fora. Quase sempre a sensação era de desespero. Carros e motos passavam freneticamente. O contraste era minha Avó cochilando no pátio. Ou sentada com a vizinha. Em um tempo que parecia diferente. 

A cena contraste me faz questionar o que as mantinham ali olhando o desespero dos carros. Elas passavam quase a tarde toda sentadas na porta de casa, de máscara, e com distanciamento. Nem sempre conversavam. 

Certa vez eu disse, “Já está aí, Vó?!” 
E ela respondeu, “um calor, uma agonia lá dentro, minha filha”. 

Observei essa cena durante um ano e comecei até a achar graça. Chegava e dizia: “já estão aí, hein…”
Compreendi que sentar na frente da porta era criar janelas para acalmar a “agonia lá dentro” e as faltas nesses tempos incertos. Era também para lembrar da plenitude da vida.

Cada uma com suas janelas.

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Escrito por Jeniffer Geraldine
Baiana, escritora, jornalista e professora. Apaixonada por livros, fotografia, séries, filmes, pôr do sol, olhar pela janela, música e viajar.