“Guardei no armário” – o livro manifesto de Samuel Gomes

Guardei no armário foi publicado em 2020 pela Editora Paralela e traz o relato autobiográfico de Samuel Gomes, jovem negro, gay, periférico e ex-evangélico. Com uma linguagem simples e cativante, o autor compartilha sobre seu processo de autoaceitação e os desafios de enfrentar uma sociedade racista e homofóbica.

Além de escritor, Samuel é criador de conteúdo e mantém desde 2015 o canal Guardei no armário no YouTube com a proposta de ouvir outras pessoas LGBTQIA+ sobre seus processos de aceitação da sexualidade. Em 2019, o autor foi eleito Top Voices 2019 pelo Linkedin.

Fonte: Instagram do autor Samuel Gomes’

A leitura de Guardei no armário se assemelha a leitura do diário íntimo de um garoto que desde muito jovem queria entender quem era e qual era o seu lugar no mundo. Cercado por uma criação evangélica severa, Samuel constantemente entrava em conflito sobre o que sentia, o que ouvia dos pais e da igreja e o que deveria ser para a sociedade.

No livro, Samuel faz um mapeamento dos momentos mais marcantes da sua trajetória e aborda algumas questões como: criação no lar evangélico; a descoberta do primeiro amor; heteronormatividade; a igreja como um espaço social opressor; o encontro com a internet – um espaço para ser quem realmente gostaria de ser e encontrar semelhantes; a descoberta e acolhimento da negritude. Uma trajetória que como ele mesmo define “marcada pela busca do pertencimento”.

Quando descobriu e acolheu a sua negritude, por exemplo, o rapaz encontrou resistência em casa e se questionou “como a roupa ou o cabelo de alguém poderiam determinar o amor de Deus por um ser humano?”. Tanta resistência, angústia e conflitos pessoais contribuíram para que Samuel tivesse a saúde do corpo e da mente abaladas o que culminou na doença de Crohn.

“Durante anos eu havia procurado seguir regras, principalmente vindas da Igreja, para tentar me enquadrar no perfil de bom cristão e bom filho, e quem sabe um dia conquistar um lugarzinho no céu. Mas àquela altura eu estava com 23 anos, já aceitava a minha orientação sexual e não achava que Deus me amaria menos por causa disso. Quando parei de pedir perdão a Deus por aquilo que Ele mesmo havia feito e comecei a aceitar o que acredito ser a Sua vontade na minha vida, todo o peso, toda a preocupação com o inferno e os julgamentos desapareceram.”

As autobiografias mostram que o íntimo é universal, o pessoal é político. E elas abrem oportunidades para descobrirmos novas e diferentes narrativas que contribuem para olharmos para a diversidade e complexidade dos sujeitos. Samuel, por exemplo, sabe que sua história não é a única e por isso também abriu espaço no livro para entrevistas com outros brasileiros LGBTQIA+, entre eles estão: Spartakus Santiago, Jonas Maria, Nátaly Neri, Jup do Bairro e Rodrigo França.

Guardei no armário é um livro manifesto em que Samuel junta sua voz a de outros LGBTQIA+ para pedir respeito e reconhecimento às diferenças.

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Escrito por Jeniffer Geraldine
jornalista, criadora de conteúdo, mestranda em crítica cultural