Forte de Santo Antônio, s/n

– Forte de Santo Antônio, por favor.

– Você quer dizer: Farol da Barra? – O taxista respondeu

– Sim. Isso mesmo!

O final de semana em que estive na sua cidade foi um misto de emoções. Me senti um liquidificador contendo em seu interior ansiedade, estranhamento, curiosidade e encantamento. Me vi reconhecendo aquelas ruas em que andamos juntos num passado próximo. Andando de mãos dadas como fazem os casais? Não. A sociedade ainda não estava preparada para o nosso caso de amor. Talvez nem nós dois estivéssemos… Andávamos lado a lado, esbarrando um no outro, sentindo a pele roçar discretamente.

Por aquelas ruas conhecidas de um passado que foi quase ontem, me vi vivendo ali, próximo de você. E aquilo foi mais confuso do que estar ai sem ter você. Dá para entender essa sensação? Não sei explicar direito. Mas é como se aquelas ruas, placas e sinalizações fizessem sentido e nada daquilo era por acaso. Será que tudo isso estava predestinado?

O Farol por exemplo, ali há anos na Barra, entre turistas, moradores e transeuntes… Tão forte, tão impetuoso… Tinha um significado diferente da primeira vez em que estive ali com você. Você lembra daquele dia? Fazia pouco sol. As nuvens estavam pintadas de cinza e o dia prometia chover. Você me fez rir entre as pedras e ficar com as bochechas coradas. Enquadramos aquele momento em uma fotografia e toda vez que olho para ela, sem você ali ao meu lado, não consigo me ver, vejo apenas você em meu sorriso leve, fácil, bobo…

Um parênteses que considero importante: “O farol está muito associado a outros símbolos marítimos, como a onda, a âncora, o navio, o mar, entre outros, remetendo a um universo de incertezas, de perigo, de estagnação ou agitação. Neste contexto, o farol simboliza a luz que guia para o caminho seguro, para a direção certa, para o destino onde se pretende chegar. Para os marinheiros e pescadores, o farol representa coragem para enfrentar a força do mar e o poder da natureza, além da devoção e o amor pela família. O farol também simboliza orientação, proteção, segurança, esperança, fé e inspiração.” (Dicionário de Símbolos)

 

E não é que dessa vez o tempo estava igualzinho aquele dia em que estive aí no Forte de Santo Antônio da Barra com você? Parecia que a vida queria repetir a dose. Pelo menos a meteorologia estava ao favor das nossas memórias. Pelo menos alguma coisa, não é mesmo?

Ali, sem você, com todo esse simbolismo de orientação, proteção, segurança que o Farol representa… Pensei em te ligar. Te convidar para repetir aqueles passos comigo. Mas porquê não liguei? Porquê não nos encontramos? Ao mesmo tempo em que queria, algo me segurava, me prendia, mas não a você… Parecia que a minha tatuagem de âncora no pé me fazia aportar na razão e você sabe como isso é bem contraditório para mim que sou todo feito de emoção.

Fugi de você, confesso. Mas fugi por um bom motivo, por mim, pela minha sanidade. Você é racional demais e eu mereço alguém que seja um pouco emoção. Alguém que deixe um pouco, nem que seja por breves dois segundos, a razão de lado e diga que me quer ali, agora. E eu sei que você não é feito dessas banalidades do amor romântico. É, eu sei… E foi por isso que resolvi ser só, ali, pelas ruas em que antes havíamos andado juntos.

E como essa carta é toda simbolismos e contradições… Sendo só por aquelas ruas já conhecidas de uma memória afetiva, me vi morando ali, lado a lado de você, mas sem você. Prelúdio? Destino? Aceitação? Acho que nunca saberei explicar essa nova sensação. Apenas sinto que o nosso tempo talvez tenha passado…

 

Vá, ande logo que a fila tá aumentando e a tendência é piorar. Veja, se manque, tão querendo lhe passar pra trás. Vá, ande logo que a chuva tá aumentando, e a tendência é se molhar. Vá. Vá se acorde, que seu sonho já não existe mais. É o passado distante demais! E você vai se dar conta, que não somos mais iguais. E você vai se dar conta, que o passado não volta mais. E você vai se dar conta que é agora ou nunca mais. E você vai se dar conta que não se vive de lembranças. Vá, ande logo que a fila tá aumentando e a tendência piorar,
Veja, se manque, tão querendo lhe passar pra trás. São os anjos e demônios que traem.

SandyAlê – A fila

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