Felicidade por um fio

– Oxe, ela acorda mais cedo que ele para se arrumar.
– Fulana quando está de touca e o marido chega, sai correndo para tirar.

O diálogo acima foi entre eu e minha Mãe enquanto assistíamos a nova comédia romântica da Netflix, “Felicidade por um fio”. O filme, baseado na novela Nappily Ever After escrita por Trisha R. Thomas, traz como protagonista Violet, uma publicitária bem-sucedida, que no dia do seu aniversário ao invés de ganhar uma aliança do namorado, ganha um cachorro.

A crise no relacionamento é o ponto de partida para crise de identidade vivida por Violet. Se ela era perfeita, por que o seu namorado não a pedia em casamento? O homem bonitão, futuro médico, diz que ela é perfeita demais. Violet passou muito tempo vivendo através das expectativas da sociedade, da família e de um homem. E não sabia quem era ela de verdade, sem as imposições da ditadura da beleza, sem o salto alto, os vestidos apertados, a maquiagem e os cabelos lisos.

O longa, através da decepção amorosa de Violet, critica a ditadura da beleza que prioriza as mulheres brancas, de cabelo longos e lisos. A ditadura que padroniza o ser mulher e a enquadra em um único modelo. A mulher, que como diz a própria protagonista, foi criada para agradar aos homens e não para ser o que ela gostaria de ser.

A banda “Francisco, el hombre” tem uma música chamada “Triste, louca ou má”, considero uma das canções de um álbum fictício que tenho sobre independência feminina.

A canção diz que toda mulher que se recusa a seguir a receita cultural (casa, marido, filhos) é considerada triste, louca ou má. É impossível ser feliz se não seguir tal receita. Aquela que tem independência financeira provavelmente é uma louca por trabalho. A que não quer casar é frígida ou lésbica (mesmo que seja heterossexual) e, com certeza, vai viver triste e sozinha pro resto da vida. E a que optou por não ter filhos é má, não gosta de crianças, uma verdadeira bruxa.

Essa música soa como um hino de liberdade porque diz que nada disso define o ser mulher. Um homem, uma casa, a carne, as roupas, a sociedade, não definem a mulher. E é um convite para que as mulheres não sejam alvo de caça, que queimem os mapas que levam para esses caminhos e tracem novas rotas, novas possibilidade, que reinventem suas vidas.

Violet começou a reinventar a sua vida através dos seus cabelos. Ela, mulher negra, em meio a sua crise de identidade, raspou a cabeça. Vi ali como o início de uma nova pessoa. Passou a máquina, passou a vida a limpo, e se deu a chance para crescer um novo alguém, mais real, longe dos estereótipos e dos padrões estéticos. Se viu nua, sem rumo, mas viva. Uma transição capilar, uma ressignificação da vida. Redescobriu sua beleza natural, descobriu que a beleza é diversa. 

“Não deixe uma opinião negativa se tornar a sua realidade.”