E como vai o tempo?

O que é o tempo? Tempo é silêncio ou tempo é barulho? É parte silêncio, parte barulho? É memória ou presente? Bons tempos ou tempos bons – qual o indicativo de tempo? Em tempos de isolamento social, como ocupar o tempo? Quanto tempo o tempo tem? 

Em busca de preencher o meu tempo, passei alguns consideráveis minutos em busca de algo para ver nas plataformas de streaming. Não queria algo dramático, não curo comédia, não estava a fim de série policial ou de super-heróis (minhas preferidas para matar o tempo).

Eis que resolvi ver um documentário sobre o tempo: Quanto tempo o tempo tem. A diretora Adriana Dutra estava em busca dessa resposta para entender, porque no chamado mundo moderno, estamos cada vez mais sem tempo.

No filme há uma discussão histórica interessante sobre a criação das medidas do tempo. Assim como uma reflexão filosófica sobre a presentificação do tempo. E também um debate futurístico sobre o transhumanismo ou o pós-humano – que entendo como controle do tempo e do corpo.

Com ajuda de cientistas, escritores, psicanalistas e outras personalidades, chega-se à conclusão de que a reflexão sobre o tempo ou de quanto tempo o tempo tem pode não ter um fechamento, mas deve suscitar mudanças nos modos de ser e de viver. O que me faz pensar que refletir sobre o tempo, ou questioná-lo, é pensar sobre mudanças, sejam elas individuais ou coletivas. Afinal não há o individual sem o coletivo.

Na época da Revolução Industrial, havia a produção de bens materiais. Hoje, no pós-industrial, há a produção de bens imateriais. Até nas nossas horas vagas, estamos produzindo, por exemplo, na internet. De certa maneira, estamos trabalhando para as empresas como Twitter, Instagram e Facebook. Mesmo aqueles que não estão utilizando as plataformas de redes sociais digitais conscientemente como um modo de trabalho.

A tecnologia nos faz ser fragmentados. Dividimos nossa atenção com a tela do celular, a TV e a família em casa. A atenção é fragmentada de modo que não se perca nada e se opine sobre tudo. Complexo e contraditório. Há como viver sem a internet? O que fazer em tempos de isolamento social sem a internet? 

Há listas circulando na internet com dicas como: ler livros, estudar, tomar sol, se exercitar, limpar a casa. E fazemos tudo isso acompanhando a live no Instagram, os vlogs no Youtube e compartilhando stories sobre como estamos usando nosso tempo no isolamento social. Não há o não fazer nada. Já dizem por aí: cabeça vazia, oficina do diabo. E quem quer o diabo falando coisas na cabeça, quando já se tem a Cardi B gritando loucamente couronavairus

Eu nem sei como terminar essa crônica. Eu nem sei qual o sentido dela. Acho que era falar do documentário. Ou talvez do isolamento social em tempos de coronavírus. Ou foi só para refletir mais uma vez sobre o uso das redes sociais digitais. Ou eu só queria ocupar meu tempo fazendo algo que faz meu tempo valer a pena.

Sobre o documentário, ficam duas lições: tempo é mudança e tempo é presente. Um instante de cada vez, dizem os budistas e filósofos. E eu complemento: uma notícia de cada vez, um curso de cada vez, uma live por vez, um surto por vez.