Dois irmãos – Milton Hatoum

Muita gente comenta da HQ Dois Irmãos, dos quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá, que é uma adaptação do livro vencedor do prêmio Jabuti 2001, Dois irmãos, escrito por um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea, Milton Hatoum. Como não tenho o hábito de ler quadrinhos, fui direto na fonte e li o livro. Sem saber de muita coisa, apenas pensando que seria a história de dois irmãos o que já me chama muita atenção porque sou filha única e essa relação sempre me deixa curiosa, apesar de não sentir falta alguma de ter irmãos. 

O cenário do livro é Manaus e conta a história dos gêmeos,Yaqub e Omar, e sua família de origem libanesa: a mãe Zana, o pai Halim, a irmã Rânia. E ainda os agregados: a índia e empregada Domingas e seu filho Nael. Yaqub e Omar são separados aos 13 anos, um ano antes da Segunda Guerra Mundial. O pai queria mandar os dois meninos para o sul do Líbano mas a mãe não permitiu e apenas Yaqub viajou.

Depois de cinco anos, o filho retorna para casa e nem ele e nem sua família são mais os mesmos. Enquanto Yaqub teve uma mudança drástica na vida e precisou sobreviver não sabemos exatamente ao quê, o seu irmão caçula viveu como protegido na casa dos pais e tinha sempre tudo o que desejava. Eles acabaram criando personalidades totalmente opostas, ou pelo menos era o que aparentava. Enquanto Yaqub era inteligente, quieto e tímido,  Omar só queria saber de bebida, farras, mulheres e era muito violento.

A leitura me prendeu desde o início, principalmente por três motivos: O que tinha levado os pais a decidirem enviar os filhos, ainda crianças, para tão longe? Por que Yaqub tinha sido o escolhido? E o narrador.

Hatoum coloca no papel de narrador uma figura às vezes importante, outras vezes até insignificante na história da vida dos gêmeos. Nael, o filho da empregada Domingas, é quem nos conta sobre Yaqub e Omar. Uma criança que cresceu observando a relação confusa e atribulada dos meninos com seus pais e irmã. O interessante é que ao mesmo tempo em que nos conta sobre os gêmeos, Nael tenta escrever a sua própria história, já que aquela família era o que tinham lhe ofertado como referência na vida.
A leitura de Dois Irmãos me incomodou de várias maneiras. Muitas vezes não conseguia compreender como uma mãe pode preferir um filho ao outro, como uma irmã não conseguia amar alguém além das figuras dos seus irmãos e como uma mulher se submeteu ao silêncio durante anos. E falar de filhos, também é falar de pais, a maternidade e a paternidade são colocadas de uma forma intrigante no livro. 

 

Me tirou da zona de conforto, me fez pensar e, principalmente, me fez ter noção de algo que não tive a oportunidade de viver. E literatura é isso. Ela nos leva para um lugar que não é nosso, em quase 200 páginas, e nos marca pro resto da vida.

Talvez a relação de amor, ódio e ciúme nessa família, te faça lembrar de Esaú e Jacó, do Machado de Assis, e de Caim e Abel, do Velho Testamento, mas vale a pena conhecer a literatura de Milton Hatoum

 

Alguns dos nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos. (pag 196)

 

 

BEDA2016