Dívidas literárias – ler precisa ser uma obrigação ou competição?

Eu tenho uma lista de dívidas literárias com autores e livros que gostaria de ler antes de morrer. Sim, antes de morrer. Não há dramas. Só vontade de conhecer grandes nomes da literatura mundial antes de partir dessa pra melhor, como diz minha Avó.

Só pra você entender melhor, seguem alguns itens da minha lista:

Livros: Crime e Castigo, Os Miseráveis, Anna Karenina
Ler o máximo possível de: Clarice Lispector, Agatha Christie, Sherlock Holmes, Jorge Amado, livros escritos por mulheres, livros brasileiros
Conhecer a literatura de: José Saramago, Gabriel García Márquez, Mia Couto, Charles Dickens

Houve um tempo em que eu comprava muitos livros por impulso e nessas compras adquiri obras que estão encalhadas na minha estante, muitas delas são da minha lista de dívidas literárias. Tem um livro, em especial, que comprei em 2015: o Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel García Márquez. É uma obra tão famosa, há quem ama e o considera um dos livros da vida, há quem odeia e acha monótono. O fato é que eu acabei criando um distanciamento do autor e todas as obras dele por ter na estante essa obra de peso não lida. Na ideia de “diminuir a pilha de livros comprados e não lidos”, eu fui deixando de lado o desejo de conhecer o Gabo porque acreditava que deveria começar a ler por Cem anos de solidão.

Vejam só que ambição a minha: eu queria começar pelo mais difícil. Olho grande até para os livros. Mas já faz um tempo que venho repensando a minha relação com os livros, não só o desejo compulsivo de comprar, como também por quê a literatura ocupa esse lugar importante na minha vida.

E aqui estão algumas pequenas conclusões sobre:

1) Não deve existir dívidas. A gente não precisa se sentir obrigado a “pagar” algo que em primeiro lugar deve nos trazer satisfação pessoal.

2) Ler envolve gostos e desejos pessoais. Uma leitura que faz todo sentido pra mim pode não fazer pra você. Assim como a leitura que hoje pode não significar muito pra mim, daqui uns anos pode ser justamente as palavras que eu precisava ler.

3) Todo livro tem o momento certo para ser lido. Sim, eu acredito nisso. E essa ideia reforça uma outra: não adianta forçar uma leitura que não está fluindo.

4) Você não precisa ler o que todo mundo lê ou está lendo. No meu vídeo de dicas para ler mais, eu comento que você precisa se perguntar: o que eu preciso ler agora? Que leitura fará sentido pra mim hoje? E aí, você vai ler o que está com vontade e terá mais prazer no momento da leitura.

5) Não preciso aproveitar todas as promoções de livros que surgirem. Afinal se tem algo que sempre existirá é promoção de qualquer coisa.

6) Não preciso me sentir mal por não ler mais de 80 livros por ano. E por não ter a estante cheia de livros de cima até embaixo. Ler não precisa ser uma competição.

7) Posso assumir compromissos literários, como por exemplo, ler determinado livro para participar de um grupo de leitura, mas eu não preciso tornar aquilo um dever a ser cumprido faça chuva ou faça sol. A gente já tem muitas obrigações na vida para fazer da arte da leitura algo do tipo cartão de ponto. Ler não precisa ser uma obrigação.

8) Posso ler o que eu quiser, desde os tão criticados livros de autoajuda/ autoconhecimento até os grandes clássicos literários. Eu decido! E ninguém tem nada a ver com isso. O livro que vai mudar a minha vida pode não ser o livro que está na sua lista de favoritos. E o contrário também.

Nos últimos dias, li dois livros que se encaixam naquela minha lista de dívidas literárias: o primeiro livro de Agatha Christie, O misterioso caso de Styles, e o Crônicas de uma morte anunciada, do Gabo.

Para ler o da Agatha, pensei sobre o momento que estava passando na vida. Não queria um livro que me fizesse pensar sobre relações humanas de modo profundo. Queria um livro que tivesse a possibilidade de me prender do início ao fim, algo que me fizesse esquecer um pouco do meu momento, e me levasse pra uma atmosfera diferente e talvez de mistério. Então lembrei do meu desejo de conhecer as obras da Rainha do Crime e que seria um bom momento para isso. Foi o que aconteceu.

Já o livro do Gabo, tirei da cabeça a ideia há muito tempo que precisava ler de qualquer jeito Cem anos de solidão. E também deixei de lado o autor, como já disse aqui. Mas o livro escolhido para leitura do mês de junho, no grupo de leitura on-line Pacto Literário, é o Crônicas de uma morte anunciada. Pensei ser uma boa oportunidade já que a motivação dos amigos pode ajudar em alguns casos. E que experiência de leitura incrível! Estou até agora pensando no enredo e nos personagens. Foi uma leitura de oportunidade e não de pagamento de dívida.

Com tudo isso, resolvi que vou acabar com essa história de dívida literária. Se por acaso eu for dessa pra uma melhor sem ter lido todos os livros que imaginei, vou com a certeza de que li os que deveria ter lido e tudo bem.

Espalhe “Dívidas literárias – ler precisa ser uma obrigação ou competição?” por aí! 😉

10 Comentários

  1. Um autor chamado Daniel Pennac escreveu um lindo livro chamado “Como um romance” e nesta obra de Pennac encontramos uma lista com os “Direitos imprescritíveis do leitor” – coloque no Google que você encontrará facilmente. Um desses direitos é o de não terminar um livro. Como fizemos com “Cem anos de solidão” e certamente com tantos outros títulos. O importante é ler por prazer, quando querer e sem estipular metas ou competições, como você bem escreveu. Ora, fazemos tão poucas coisas por prazer, por que submeter algo que eu gosto (literatura) a metas que podem ser inatingíveis como 200 livros em um ano? Nada contra quem faça, mas penso diferente: um bom livro, um livro transformador de verdade vale mais do que inúmeras leituras apenas para “cumprir uma meta”. Meta eu cumpro na empresa, na escola com planejamentos e sequência didática. 🙂 E concordo plenamente contigo: não me obrigo a ter dívidas literárias. Há obras que quero ler, mas vou devagar, tenho o tempo a meu favor… 🙂

    • Jeniffer Geraldine Reply

      Isso mesmo, Jaime!
      Amei seu comentário. <3
      Eu preciso ler o livro do Daniel Pennac. Acredito que vc já havia comentado sobre ele antes.
      bjão

  2. Cristiane Serrat Reply

    Acredito que ler não é obrigação, mas emoção. Também concordo que a leitura não deve seguir modismos ou opiniões de críticos. Ler para mim é tão vital como respirar. Adorei teu texto

    • Jeniffer Geraldine Reply

      Estamos juntas nesse pensamento, Cristiane! Eu sempre digo pra várias pessoas que ler para mim é quase uma terapia.
      É o meu momento. <3
      Obrigada pela visita e volte sempre.
      bjão

  3. Jeni, concordo com tudo o que disse!
    Ler, pelo menos para mim, é um ato de prazer e de fugir da realidade e todas as cobranças e coisas chatas do dia-a-dia, portanto, não faz sentido algum fazer da leitura mais uma cobrança chata.

    Ótimo texto!

    • Jeniffer Geraldine Reply

      Pois é, Luke!
      Sem pressões. Vamos continuar a ler por prazer.
      Bjão

  4. Jen, perfeito isso que você trouxe. Ás vezes somos impelidos a ficar nesta eterna “disputa”, muitas vezes com a gente mesmo, sobre o que já leu, o que precisa ler, se leu pouco ou muito, etc…Mas como o Jaime disse aí em cima, ler não deve ser uma obrigação, se é algo que nos faz bem e nos impulsiona. Então, tenho sido bem mais gentil comigo mesma e aproveitado a vontade ou a falta dela de ler e/ou a ausência ou não de determinado autor, etc. Temos que ir devagar, respeitando nossos limites, nosso tempo e nossas particularidades. Beijos! 😉

    • Jeniffer Geraldine Reply

      Disse tudo, Mara!
      Vamos ser sempre gentis com a gente.
      Bjão

  5. Você está certíssima! Eu venho pensando muito sobre essas dívidas literárias que venho acumulando, e como elas não são necessárias. Se livrando de leituras obrigatórias, a vida até perde um pesinho, né

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