O inimigo da verdade não é a mentira
e sim, a convicção.

Friedrich Nietzsche

Mentiras no Divã me conduziu a um elevado estado de ebulição psíquica. Desde o início de sua leitura muitas reflexões têm sido feitas, aprofundadas e muitas outras seguem em busca de um terreno para se assentar…

Sinceramente, não sei como descrever o quanto essa leitura mexeu em minhas estruturas… nesse exato momento a única que coisa que tenho por certo é a sensação da necessidade de viver a fase do “rezar”[²]… estar em um canto isolado, quieto, para entrar em profundo contato com o meu “eu” e com o cósmico…

Nossa existência nesse plano é uma experiência ímpar. Por suas incógnitas e nuances. Por uma infinidade de adjetivos que  possa se atribuir. Mas, o aspecto dual que a envolve, creio eu, ser um dos pontos chaves de todo o mistério que a circunda. De uma forma ou de outra estamos sempre envolvidos e entrelaçados com essa dualidade cósmica. Dia e noite; céu e inferno; bem e mal; vida e morte; mentiras e verdades…

Jogado em meu divã, sou paciente e terapeuta. Minto para mim mesmo e em seguida busco trabalhar as razões pelas quais menti – sem que ao menos necessário fosse –, para então poder tentar iniciar um processo de laboração.

Estás a me achar um louco? Hora, pois, não vais dizer que nunca mentiste e, que, logo em seguida te deste conta de que fora desnecessário e, então, te puseste a ti perguntar por que mentiste?!?

Esta é apenas uma das nuances das infindáveis incógnitas desta vida. E, assim como a personagem Carolyne se deparou diante de verdades, desconhecidas ou ignoradas, acerca de si mesma – mesmo estando vestida de mentiras por meio de uma personagem (ou persona) que ela criou para proteger a sua identidade – alguns impulsos e desejos por detrás de algumas mentiras as quais conduzimos as nossas vidas podem vir a nos guiar por caminhos que nos façam nos encontrarmos com algumas verdades e até conosco mesmos.

Tal como figuras da mesma moeda, mentiras e verdades são elementos da nossa natureza humana. Assim como o bem e o mal está em nós. A existência de um está correlacionada e condicionada a (in)existência do outro.

É difícil aceitar e reconhecer que mentimos. Que enganamos e somos enganados. Que a mentira nem sempre está relacionada a desvio de caráter, má conduta ou má fé. Pode ser um mecanismo de defesa. Uma tentativa de fuga da realidade. Um mundo paralelo. Um grito por socorro…

O que são devaneios senão mentiras que amaríamos viver?! Quem de fato faz de sua vida um livro aberto sem nenhuma artimanha na escrita; ou páginas omissas; ou capítulos não contados? Quem não tem seus segredos, mentiras, omissões, camuflagens?…

Queiramos ou não, a mentira faz parte do inconsciente coletivo das nossas sociedades. Se isso é bom ou ruim; certo ou errado; ético, estético ou antiético; moral, imoral ou amoral; pecado ou não, isso é o seu superego quem vai determinar…

O que de fato importa – e faz toda a diferença – é a forma como lidamos com a mentira. Quais sentimentos e emoções nós desfrutamos ao vermos as mentiras reverberadas em nosso ‘eu’ todas as vezes que nos lançamos em nossos divãs particulares. Quanto há de verdade nas convicções que defendemos com unhas e ferro?

Não faço aqui uma apologia à mentira. Ao contrário, proponho uma discussão e reflexão sobre ela. Mais que isso, um olhar sobre o sujeito. Mas não em tons de julgamento ou descriminação. Proponho um olhar que busque compreender esse indivíduo, ou a si próprio, em sua subjetividade; em seus contextos; em suas particularidades. Um olhar humano para com o humano – que está diante de ti, ou que está em ti.

Convictos das nossas verdades, nós tendemos a menosprezar as verdades alheias. Ignoramos o outro. Desmerecemos o seu ‘eu’. Rejeitamos a(s) sua(s) identidade(s). Tratamos como inumano aquele que nos é semelhante. Usamos, para julgar, medidas com as quais não gostaríamos de sermos julgados.

Quando me perguntam: – Como vai? Frequentemente respondo, com um lindo sorriso amarelo no rosto, – tudo bem. Minto! Tornei-me o abominável monstro da sociedade?! Por mentir ou por confessar ter mentido (dito a ‘verdade’)?

E você? Ah! Não fazes isto. Sei…

As verdades além de relativas são abertas e infinitas… assim como as mentiras.

 Live, lie or let it die. Lie, live or let it die…

[1] Título sugerido por um amigo em uma conversa sobre o livro “Mentiras no Divã” e o impacto de sua leitura em nossas vidas.

[2] Uma alusão ao livro Comer, Rezar, Amar  – Elizabeth Gilbert.

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