Demian – Hermann Hesse

Queria tentar viver apenas aquilo que brotava espontaneamente de mim. Por que isso me era tão difícil?

Seguindo a Bíblia, Caim matou seu irmão Abel por ciúmes, após Deus ter recusado sua oferenda, configurando o primeiro homicídio da humanidade. Entretanto, há os que defendem que, na verdade, a explicação da história é bem mais simples: “o homem forte matou o homem mais fraco”. Esses são os chamados cainistas.

O ponto de vista cainista é apresentado ao leitor no início de Demian, do escritor alemão Hermann Hesse, em uma conversa que acontece, surpreendentemente, entre dois garotos, após uma aula de religião. Um deles é Emil Sinclair, menino de classe média que vive uma vida confortável em um ambiente familiar tradicional cristão. Sua visão de mundo é extremamente maniqueísta, dividida entre o bem e o mal como se uma linha delineasse cada aspecto da vida. Com o passar dos anos, no entanto, ele começa a questionar sua identidade como se estivesse se deslocado entre os dois lados, da “luz” e das “trevas”, sem se encaixar adequadamente em nenhum deles.

O mundo de luz, representado por sua família, pelas ações boas e coisas conhecidas sempre foi predominante, até que aos dez anos de idade ele ultrapassa a linha divisória. Na ocasião, para se gabar para o valentão do bairro, Kromer, Sinclair mente que roubou algumas maçãs de um vendedor local. Kromer então passa a chantageá-lo para não contar ao dono das frutas. Assim, tudo que é confortável a Sinclair parece desmoronar ao ter que enfrentar sozinho a ameaça; se contasse para o pai, ficaria de castigo, mas também não tinha dinheiro para pagar a chantagem. O que poderia ser um simples aprendizado para um garoto da idade dele se torna um ponto de profunda transformação, do qual ele não retornará mais para a condição anterior.

Porém, um acontecimento consolida essa transformação logo em seguida, quando um novo aluno chega à escola e à vida de Sinclair: Max Demian, filho de uma viúva de posses, misterioso, maduro e inteligente. Voltando à cena do cainismo, é Demian que apresenta uma nova perspectiva para Sinclair, deixando o garoto mais confortável com a ideia de pertencer ao “mundo obscuro”.

A narração é de um Sinclair adulto que olha para seu passado. Assim, o relato não escapa às muitas análises que, percebemos, dão mais intensidade aos questionamentos que o estavam atormentando quando menino. Podemos considerar que a narração está transformada pelo homem e seu olhar mais maduro sobre os acontecimentos, mas não sabemos a que nível essa interferência chega. Entretanto, também observamos um amadurecimento gradual do protagonista durante o decorrer do romance, que tem sua narrativa dominada pela exteriorização de reflexões e angústias — afinal, o que Hesse prioriza é que o leitor acompanhe o que se passa internamente em Sinclair, em reação direta e contestadora ao que ocorre exteriormente.

Em diversos momentos, podemos perceber Sinclair confuso com sua própria identidade; o jovem parece estar em constante busca de uma perfeição de caráter inalcançável, e encontra Max Demian várias vezes durante essa jornada de autoconhecimento.

Escrito em 1917, o romance da tradição alemã do bildungsroman (ou, romance de formação) é uma das principais obras do também alemão Hermann Hesse, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1946. No Brasil, os livros do autor, entre eles O Lobo da Estepe e Sidarta, seus romances mais famosos, são publicados pela editora Record.

O extraordinário vazio e a mortal solidão que senti pela primeira vez nas férias seguintes à minha confirmação (como se tornariam familiares mais tarde esse vazio, esse ar rarefeito!) não deviam desaparecer tão cedo. O adeus ao lar foi-me estranhamente fácil, tão fácil que eu mesmo me envergonhei com a indiferença, pois minhas irmãs choravam sem cessar e eu não podia. Estava assombrado comigo mesmo. Até então não podia ser tachado de insensível e havia sido, no fundo, um bom menino. Agora estava totalmente mudado. Indiferente ao mundo exterior, passava os dias ouvindo o rumor das correntes obscuras e proibidas, que fluíam em mim, subterrâneas. Me crescimento se acelerara muito nos últimos seis meses e a minha figura projetava sobre o mundo uma sombra comprida, estreita e como que inacabada. Todo o amável atrativo do adolescente se havia retirado de mim. Senti que ninguém seria capaz de amar-me assim e me desagradava profundamente a mim mesmo. Às vezes me invadia uma profunda saudade de Demian, mas em outras o odiava e o culpava pelo empobrecimento de minha vida, que sobre mim pesava como uma doença repulsiva. ( pags 87-88)

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