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Categoria: Crônicas

Vícios solitários

Experimente organizar um dia inteiro para você. Não estou falando apenas de momentos de beleza e cuidados com o corpo, mas um momento de intimidade e sossego. Ir para cozinha e fazer algo especial pensando apenas no seu gosto, com bastante pimenta ou tempero. Escolher um vinho que não combina com a comida, mas é o preferido. Ouvir aquele CD brega que seus amigos não curtem, porém é um dos favoritos e te traz boas lembranças.

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Você dançaria comigo mais uma vez?

ao som de: Los Hermanos – Mais uma canção

Eu queria te dizer tantas coisas, sabe? Sei que você sabe e eu sei que não deveria fazer perguntas retóricas. Mas é que assim que começo a pensar em você, começo a me perder.

E eu queria dizer que eu sei que fui eu que errei da última vez. Não errar, errar. Mas fui eu que fechei a porta na sua cara e disse: Não precisa mais voltar, estou machucado e não quero mais viver assim. Tolo? Precipitado? Infantil? Talvez uma dose de tudo misturada com o cansaço de como as coisas estavam e uma dose de uma vida atribulada.

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Quarta-feira de cinzas

Nos conhecemos num domingo. Os bloquinhos passavam. As pessoas esbarravam. A rua estava movimentada. Não tinha como voltar sem tropeçar em alguém. Não tinha como ir sem enfrentar de frente as pessoas que vinham atrás da marchinha. E ali parado, esperando aquele tsunami de confetes e alegria passar, a gente se esbarrou. Esbarrou mesmo. Ele estava conversando com uma amiga. Eu estava de costas. Nós viramos ao mesmo tempo e como num filme, cara a cara, quase um beijo roubado acidentalmente pelo acaso.

Naquele curto espaço físico fomos obrigados a conviver com o encontro. Surgiram desculpas pelo esbarrão, sorrisos sem graça. E daquele choque entre nossos corpos algo soltou faísca. Do esbarrão para o beijo não durou muito mais que 30 segundos. Tudo aconteceu rápido, voraz e sedento.

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Forte de Santo Antônio, s/n

– Forte de Santo Antônio, por favor.

– Você quer dizer: Farol da Barra? – O taxista respondeu

– Sim. Isso mesmo!

O final de semana em que estive na sua cidade foi um misto de emoções. Me senti um liquidificador contendo em seu interior ansiedade, estranhamento, curiosidade e encantamento. Me vi reconhecendo aquelas ruas em que andamos juntos num passado próximo. Andando de mãos dadas como fazem os casais? Não. A sociedade ainda não estava preparada para o nosso caso de amor. Talvez nem nós dois estivéssemos… Andávamos lado a lado, esbarrando um no outro, sentindo a pele roçar discretamente.

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Entre a razão e a emoção, nós dois ficamos onde?

Olha, rapaz, eu já nem sei se já não é tarde demais. Tão devagar que eu nem notei. De repente estranho a minha falta de ar, olho para a rua e vejo a chuva cair. Dessa vez espero escurecer. Eu sei que algo está para me acontecer!

Thiago Pethit – Moon

Queria te dizer tantas coisas. Queria brigar com você. Dessas brigas épicas de dedo na cara e raiva efervescente. Queria ser mais explosivo. Queria explodir em você. Queria que você recolhesse meus cacos e visse a merda que fez. Queria me jogar feito um dramalhão mexicano na frente da sua casa e dizer: Conviva com isso!

Queria ter raiva de você, mas não consigo.

Você me deixa triste com suas não atitudes. Sei que tudo gira um pouco em torno das minhas expectativas, do que criei e imaginei que você faria… Mas é que quando gostamos de alguém, esperamos um pouco de atitude dessa pessoa, sabe? Esperamos que ela haja em alguns momentos…

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Até a Sagrada Colina

Ser baiano é viver cercado por fé e cultura. Você pode até se manter distante de tudo isso, mas sempre haverá alguém próximo que vive intensamente a Bahia. Pessoas que não perdem uma festa religiosa, os ensaios de verão e andam quase 8 km até a Sagrada Colina para pedir proteção ao Senhor do Bonfim.

Sou baiana com orgulho. Adoro samba, pagode e axé. Visto branco dia de sexta, rezo para Santo Antônio, mas ainda não tinha ido até a sagrada colina no dia da Festa do Bonfim. E reza a lenda que todo baiano tem que fazer essa caminhada pelo menos uma vez na vida. No dia 15 de janeiro, coloquei um vestido branco e fui saudar o Senhor do Bonfim.

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Welcome to the era of virtual relationships

Quando seremos uma cidade sem fios. Quem será que foram os gênios que taparam os rios com prédios e o céu com cabos? Tantos quilômetros de cabos servem para nos unir ou nos manter afastados? Cada um em seu lugar. A telefonia celular invadiu o mundo com a promessa de te deixar conectado sempre. Mensagens de texto. Uma nova linguagem adaptada para dez teclas que reduz nossas línguas mais belas a um vocabulário primitivo, limitado e sem cultura. O futuro está na fibra ótica e no céu limpo. Dentre tantas vantagens eles prometem que você vai conseguir ajustar a temperatura da sua casa mesmo estando no trabalho. É claro que eles já sabem que não tem ninguém te esperando com a casa quentinha. Bem vindo à era das relações virtuais.”

Medianeras, filme

A noite foi ótima. Rimos um tanto. Conversamos um pouco. O sexo não foi o melhor, mas também não foi o pior. Nossos corpos se adaptaram rapidamente ao primeiro contato e aliviamos o estresse da semana numa cama amarrotada de motel. Na hora da despedida demos um selinho, um até logo e um abraço meio sem jeito que já dizia o que iria acontecer depois dali: Eu não ligaria. Ele não me procuraria.

Havia sido um encontro casual. Uma noite de sexo sem maiores expectativas. Um match, algumas poucas mensagens e um tesão de um dia quente de verão.

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Carta amarela nunca enviada

“Quantos quase cabem num segundo?”.

Eu não sei por que estou escrevendo essa carta. Sei que nunca a enviarei para você. Talvez esteja escrevendo para ter coragem. Mas sei que não, isso não adiantará. Ou talvez esteja escrevendo para aceitar que você não sairá daí e que eu não sairei daqui e que seremos uma frase de uma música solta no universo em uma noite de sábado…  “Nada a ver ficar assim sonhando separado se no fundo a gente quer o dia a dia lado a lado. Eu não vou deixar você com esse medo de se aproximar. Pra ter um fim toda história um dia tem que começar… Então me diz por quê? Por que que um raio cai? Por que o sol se vai?” (Dia a dia, Lado a lado – Jeneci e Tulipa Ruiz)

Se nos musicassem, acho que hoje seríamos essa música de Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci. Seríamos raios que não caem duas vezes no mesmo lugar. Seríamos Lua e Sol. Marte e Júpiter. Uma vez na vida nos encontraríamos nessas voltas que o universo dá. Seríamos eclipse. Seríamos tempestade de meteoros. Seríamos se fossemos. Seríamos…

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A nossa intimidade. Tão rara. Tão rarefeita…

Sabe o que eu mais gostava na gente? A nossa intimidade tão rara. Tão rarefeita… Tão cheia de sinceridades. Nunca escondemos nada um do outro. Eu sabia dos seus temores. Você sabia dos meus fantasmas. Eu sabia dos seus projetos que o levavam para longe de mim. Você sabia dos meus planos que te tiravam da minha rota.

Será que foi isso, a falta de mistério, que nos afastou? Você sabe né? O mistério está intrínseco nas relações amorosas. Quanto mais você esconde, mais dono do poder você é. Mas nós não precisávamos esconder nada um do outro. Mesmo sem verbalizar, sabíamos o que estávamos pensando. Mesmo nos dias em silêncio que ficávamos sem nos falar, sabíamos o delito ou deleite que queríamos cometer…

Eu sei. Nós sabíamos onde isso tudo nos levaria. Aqui? Assim, você aí e eu aqui? Não sei se tínhamos tanta certeza. Talvez ainda tivéssemos uma ponta de esperança. Mas por quê? Por que era raro não precisar se esconder atrás de uma máscara social. Não era preciso demonstrar estar sempre feliz. Não era preciso enganar. Não era preciso parecer melhor do que se era. Éramos eu e você com defeitos, traumas, medos, receios… E um coração que batia igual.

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Com a força de um tsunami

Sempre fui de namorar. Já tive cinco namoros desde os meus 18 anos. Alguns duraram por longos meses e outros pelo tempo de um verão. Alguns passaram exatamente como um dia de sol, quentes pela corrente sanguínea, ardentes na pele e silenciosos em suas despedidas como o entardecer.

Mas de todos, existiram três que me arrebataram… Às vezes o amor é devastador. Parece uma onda gigante da qual a gente não consegue escapar. Apenas estamos lá, sentados à beira da praia, curtindo a vida e ele chega sem avisar, nos engole em seu ímpeto, nos revira de ponta cabeça, nos faz tropeçar, nos entorpece, nos embriaga, nos destrói com a força de um Tsunami.

Fui invadido algumas vezes por essa força além das minhas expectativas. Nunca estamos esperando uma onda nos engolir, revirar e ir embora. Nunca estamos esperando aquele amor do tipo destruidor, devorador, desconcertante, inquietante e imenso. Nunca estamos preparados para algo que nos tire do sério, nos tire do chão, nos sacuda, revire nosso estômago atrás de borboletas, inebrie nosso coração como o canto de uma Sereia.

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