A vida mentirosa dos adultos (Elena Ferrante)

Comecei 2021 lendo A vida mentirosa dos adultos, da Elena Ferrante. Foi um livro que estava me chamando há uns meses. E eu atendi o chamado.

Às vezes me pego impressionada com a sensação de familiaridade que a literatura de Ferrante me passa. É uma familiaridade de coisas não ditas em voz alta muitas vezes, pelo menos por aqui.

Leio um trecho e penso: nossa, é isso mesmo. Relembro histórias da infância e adolescência. Causa familiaridade e estranheza. Sigo lendo parecendo que vou encontrar ali também um pouco de mim.

A vida mentirosa dos adultos foi publicado no Brasil, em 2020, pela Editora Intrínseca com tradução de Marcello Lino. A personagem principal é Giovanna e através de suas memórias de infância e adolescência encontramos alguns conflitos da época de transição para a vida adulta. Há a descoberta da sexualidade, a rebeldia adolescente, a desobediência de quem quer se dona de si, o primeiro amor, as relações ambíguas de amizade. Mas talvez o principal seja a busca por uma identidade que atravessa a construção de uma subjetividade mas ao mesmo tempo se entrelaça com as subjetividades dos pais, de familiares e amigos.

Arrisco dizer que Giovanna sabia quem queria ser ou quem deveria ser quando adulta. Uma menina amada pelos pais poderia tranquilamente seguir um caminho similar ao deles, uma vida de intelectual. Até que um dia uma comparação a pegou de surpresa. O pai Andrea a comparou com Vittoria, uma irmã que ele há muito tempo havia cortado relações. A imagem construída da tia Vittoria através das palavras ruins do pai fez com que Giovanna tivesse curiosidade em relação à tia e ao mesmo tempo estranheza em relação a si mesma.

Aliás, olhar-me no espelho tornou-se uma obsessão. Eu queria entender se minha tia estava de fato aflorando em meu corpo, mas, como não sabia qual era seu aspecto, acabei por procurá-la em cada detalhe meu que mostrasse uma mudança.
Minha tia não dissera: você tem meu rosto ou pelo menos se parece um pouco comigo; minha tia dissera: você não é apenas do seu pai e da sua mãe, você também é minha, você é de toda a família da qual ele veio, e quem fica do nosso lado nunca fica sozinho, se recarrega de força.

A busca movida pela estranheza fez com que Giovanna se tornasse mais atenta à realidade que a rodeava. Quem era a sua tia Vittoria, quem era seu pai Andrea, sua mãe, os amigos deles? Com esse olhar atento ao redor e a si mesma, a menina descobriu segredos, descobriu a vida mentirosa dos adultos, descobriu o que queria ser e o que não queria.

Quanto ao rosto, bem, não tinha nenhuma harmonia, exatamente como o de Vittoria. Mas o erro foi ter feito daquilo uma tragédia. Era só olhar por um instante que fosse quem tinha o privilégio de ter um rosto bonito e elegante e descobrir que aquela pessoa escondia infernos semelhantes aos expressos por rostos feios e grosseiros. O esplendor de um rosto, enriquecido ainda por cima pela gentileza, ocultava e prometia ainda mais dor do que um rosto opaco.
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Escrito por Jeniffer Geraldine
Baiana, escritora, jornalista e professora. Apaixonada por livros, fotografia, séries, filmes, pôr do sol, olhar pela janela, música e viajar.