7 curiosidades sobre romance policial

Em 1983, a pesquisadora Sandra Reimão publicou, através da Coleção Primeiros Passos (Editora Brasiliense), o livro O que é romance policial. A obra apresenta as características do romance policial, seus principais autores, e traça também a trajetória do gênero literário desde Edgar Allan Poe e seu detetive Dupin até o Raymond Chandler e o seu Philip Marlowe.

É um guia inicial interessante para os fãs. Encontramos dicas de leitura e curiosidades a respeito do gênero e dos seus primeiros autores.

Vejamos algumas dessas curiosidades sobre o romance policial:

Inspiração para as histórias policiais 

O pai do gênero policial é o Edgar Allan Poe (1809-1849). Mas de onde surgiu a inspiração para criar as narrativas policiais de detetive ou os romances de enigma (outras denominações comuns do romance policial)? Dos jornais europeus do século XIX. Havia uma seção chamada de “fato diverso” que trazia dramas banais e crimes raros sem uma explicação aparente.

A origem da polícia e sua ligação com os detetives 

No início do século XIX, a polícia francesa era formada por ex-condenados. Mas obviamente que a sociedade da época começa a ficar desconfiada e acredita que o limite entre um contraventor e um ex-contraventor era tênue demais. Isso tudo por conta do Positivismo, movimento filosófico da época. Aqui temos a ideia de que todos os fenômenos são regidos por leis. Assim o criminoso passa a ser visto como inimigo da sociedade. Logo teremos nas primeiras histórias de detetives, homens que não possuem nenhuma ligação com a polícia.

O memorialista | Narrador das aventuras do detetive

Em abril de 1841, inspirado pelos jornais, pelas ideias positivistas e trazendo um detetive que não faz parte da polícia, surge o Assassinatos na Rua Morgue, de Edgar Allan Poe, publicado na Graham’s Magazine. Para o detetive Dupin investigar era um hobby. Foi também com Dupin que conhecemos a figura de um narrador amigo, um espécie de memorialista das aventuras vivida pelo narrador. Não sabemos quem ele é, mas ele sabe de quase tudo que o detetive fez e nos conta sobre suas aventuras. Essa figura de memorialista vai aparecer em outros romances clássicos, como temos Dr. Watson em Sherlock, do Conan Doyle. E o Capitão Hastings narrando as histórias do Hercule Poirot, da Agatha Christie. A presença desses personagens traz para narrativa mais mistério e admiração aos detetives.

Hercule Poirot e capitão Hastings na série de TV
Dr. Watson e Sherlock (série da BBC)

O romance policial de enigma é composto por duas histórias: a do crime e a do inquérito

Temos sempre um crime que já ocorreu e a investigação. E em relação ao crime, a história é contada de trás para frente.

Ator Benedict Cumberbatch como Sherlock Holmes na série Sherlock, da BBC. Fotografia: Hartswood Films

Depois de Dupin, veio Sherlock Holmes

Conan Doyle criou o detetive mais famoso, Sherlock Holmes, que é para mim uma versão mais elaborada de Dupin. Aqui temos um detetive que não foi policial e também tem um amigo narrador das aventuras dele, Dr Watson. Muitas pessoas acreditam que Sherlock existiu além da ficção. Até hoje o famoso endereço 221 – B Baker Street recebe cartas e as pessoas vão até lá tirar fotos. O sucesso de Sherlock se dá principalmente por conta da sua personalidade. Ao contrário de Dupin que só existiu como detetive, uma máquina de raciocínio, Sherlock existiu também como homem. Ao longo das suas aventuras, nós vamos conhecendo seus segredos, seus hábitos, seus vícios. Ou seja, há uma humanização do detetive. Outra característica também é que Holmes parte pra prática, ele vai para as ruas investigar.

A Rainha do Crime, Agatha Christie 

Agatha é sinônimo de diversidade e quantidade no gênero policial. Ela nos presenteou com mais de 60 romances, além de contos, textos para teatro. E também tem vários detetives em ação, como Poirot, Miss Jane Marple, o casal Tommy e Tuppence. E essa diversidade toda fez com que Agatha rompesse com as regras do romance policial clássico.

Os romances noir  

Dashiell Hammett (1894 – 1961) criou o romance da “Série Negra” ou romance americano. Seu maior seguidor foi Raymond Chandler (1888-1959). São histórias que fogem da características do romance clássico de detetive. São narrativas com mais violência, angústia, ódio. Não há otimismo e nem moralidade. E nem sempre o detetive resolve os mistérios. Como diz a Sandra “exploram-se e aprofundam-se as situações angustiantes, em que o homem pode-se envolver”. E também através das tramas podemos perceber o “quanto o mundo do crime participa e é solicitado pela sociedade capitalista”. Um grande exemplo desse tipo de romance policial é O Falcão Maltês, de Dashiell Hammett, com seu detetive Sam Spade.

Utilizando o mundo do crime como metáfora da sociedade em geral, Hammett vai denunciando a falência das instituições burguesas, a corrupção, o egoísmo, a falsa moralidade etc. E faz com que nós, leitores, passemos a enxergar com outros olhos não a própria narrativa policial, mas o mundo em que vivemos cotidianamente.

Raymond Chandler (1896 – 1959) criou o detetive Philip Marlowe que é o narrador da sua própria história, o que quebra um característica do romance policial clássico. E nesses romances, o detetive é colocado com um ser humano e não uma máquina de raciocínio. Ele convive com a violência, pode errar, e se envolver com pessoas envolvidas no caso.

Enfim, um detetive plenamente humano, ou talvez pudéssemos afirmar tratar-se não mais de um detetive, mas de um homem que casualmente investiga.

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4 Comentários

  1. Muito legal, Jeniffer! Romances policiais não são muito a minha preferência, mas você citou dois autores que eu gosto: o mestre Poe e o Dashiel Hammett. No caso de Hammett tem outra curiosidade bacana: ele trabalhou na agência de detetives Pinkerton. Sabia sobre a matéria, digamos. rs 🙂

    • Jeniffer Geraldine Reply

      Olha que legal, Jaime! Não sabia mesmo. Eu quero ler a obra dele e do Raymond.
      bjão

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